Educação pelas ondas do rádio

A educação é uma das melhores formas para se conseguir inserção social, em especial nos setores profissionais. Quando não há uma boa educação ofertada a todos, resta apenas e a poucos, aquela educação classista, que, ao invés de libertar, aprisiona, e, ao invés de humanizar, ratifica preconceitos.

É este o quadro que se encontra no filme “Uma onda no ar” (2002), do diretor Helvécio Ratton. Eis que o único dos garotos que teve acesso à educação considerada de qualidade, resolve abdicar dela para, junto com seus amigos, montar uma rádio. Assim, eles começam a reunir esforços para abrir a tal rádio comunitária, como é chamada, na qual pudessem veicular as suas ideias, suas realidades, revelando a identidade daqueles que estavam ao seu redor.

Barreiras familiares, técnicas e relativas à falta de recursos se apresentam no momento da instalação da rádio, mas são transpostas pelos garotos. A vontade de comunicar é maior, levando-os a concretizar o sonho. Entretanto, o pior obstáculo será o governo e aqueles que crêem deter mais poder que os demais, aqueles que “são” melhores que o restante da mera população. É fácil para eles alegar que há falta de regulamentação, que a situação daqueles jovens radialistas está irregular e assim poderem destruir física e ideologicamente o veículo de comunicação que os garotos construíram e instalaram.

Muitas rádios comunitárias foram fechadas, ou não possuíram estímulos e condições necessárias para sobreviverem, pois lhes foram impostas limitações, seja quanto ao alcance da sua transmissão, seja no âmbito das (im)possibilidades de captação de recursos.

E, por falar em rádios comunitárias, quem as denominou como comunitárias? Por que a legislação atual as limita àquela comunidade, com o raio máximo de frequência de 1 km? É compreensível que se alegue que haverá noticias que não interessam ao restante da cidade. Mas, quem disse que o conteúdo veiculado pelas rádios ditas populares interessa a todos? E quanto às músicas destas mesmas rádios, elas agradam realmente a todos? Divulgam e valorizam o trabalho de todos ou se limitam apenas à “nata”?

São questionamentos que levam a repensar o modelo que está instalado. As rádios comunitárias, após serem lesadas, foram engessadas pelo sistema, como um doente que perdeu parte dos seus movimentos e que está incapacitado de crescer e de se desenvolver.

Estas rádios e seus radialistas são assim tratados. Como se estivessem invadindo o território das redes de comunicação ou até mesmo as ondas dos rádios, ocupando um espaço que supostamente não seria acessível a eles. É-lhes ainda tolhida a liberdade de informação, no âmbito específico da liberdade de informar, ferindo o direito à comunicação por interesses diversos.

Há solução? Pode-se imaginar na educação, sendo ela a via para que se alcancem tais direitos, para dar os instrumentos e conhecimentos necessários a todos, para sobreviverem e conviverem sem lesarem uns aos outros. Mas imagino, na realidade, que deveria ser uma educação que alcançasse a todos. Uma educação que ensine a pessoa a simplesmente ser, e não lhe imponha ou tente moldá-la de acordo com as concepções de outrem.

Buscar tais ideais (alcançáveis) e não esquecer as medidas emergenciais para sanar a situação do agora é um dever. Assim, será possível dar a liberdade para que todas estas ondas possuam fluir ao longo da cidade e por todos os ouvidos, os quais poderão escolher livremente o que desejam degustar.

*Isabella Poidomani é estudante de direito da UFBA.

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