A tecnologia da preservação cultural

Dirigido por Sebastián Gerlic, o documentário Indígenas Digitais retrata um pouco da realidade de Pontos de Cultura do interior da Bahia e Pernambuco, onde os índios – sobretudo as gerações mais recentes – constroem suas identidades a partir de um processo de hibridização dos elementos tradicionais com as novas tecnologias.

Sete etnias indígenas distintas participam do curta-metragem: representantes das nações Tupinambá (BA), Pataxó Hahahãe (BA), Kariri-Xocó (AL), Pankararu (PE), Potiguara (PB), Makuxi (RR) e Bakairi (MT) relatam suas experiências com os novos meios de comunicação e como isto vem interferindo, positivamente, nas suas rotinas.

A atual forma de vida destes índios nos leva a uma reflexão sobre os conceitos de cultura, comunicação e preservação. Neste sentido, recorremos à perspectiva de Raymond Williams, que, já na década de 1950 – em seus estudos preliminares sobre a cultura inglesa – atentou para o caráter metamórfico e material da cultura. Durante um longo período, as classes dominantes classificaram a cultura como o conjunto de artefatos, artistas e obras de artes produtos das mesmas classes dominantes. Deste modo, quem nascia com o privilégio de ter acesso a estes bens simbólicos tinha cultura, e as classes populares, sem acesso aos bens, eram desprovidas de cultura, aculturados ou incultos.

Estes termos, carregados de significados pejorativos, lamentavelmente são usados até os dias de hoje, sempre na direção de deslegitimar as classes subalternas na pirâmide econômica. Williams, no entanto, assim como os outros dois autores que deram origem ao campo dos Estudos Culturais, inauguraram um novo modo de pensar a cultura: como um modo inteiro de vida. A cultura é toda significação que os indivíduos constroem a partir de suas condições materiais de vida, portanto, está em permanente processo de transformação e formação.

O principal mecanismo de transformação – que também podemos chamar de transmutação –  da cultura, é o contato com o outro. Isto sempre ocorreu, seja com o nomadismo, com as migrações ou, até mesmo, no caso das grandes navegações, através do processo de exploração de uns povos por outros, hoje – com a internet – isso acontece de forma automática e ininterrupta 24 horas por dia, 365 dias por ano, e quase ninguém está imune a este movimento.

Milton Santos, em uma de suas análises sobre a globalização, defende que a cultura é preservada a partir do momento que ela é modificada e modifica o outro; que para ser mantida, ela não precisa estar intacta em uma redoma de cristal, mas, ao contrário, deve estar em movimento, atingindo outras pessoas, comunidades, países. Um bom exemplo é o que hoje se tenta resumir à definição de cultura brasileira; o que na verdade é uma profunda miscigenação de nossas culturas originárias, que no momento do primeiro contato já eram infinitamente híbridas (sobretudo as indígenas e negras), com o que veio chegando depois, com destaque para os anos 1980, 1990 e 2000, quando os Estados Unidos passam a influenciar de modo incisivo, através da transnacionalização de seu mercado, na formação cultural dos países periféricos.

A partir da evolução dos estudos sobre cultura, a questão da comunicação tende a ocupar um lugar central na preocupação das ciências sociais, sobretudo na sociedade pós-moderna, onde a configuração dos sujeitos está muito mais vinculada à sua formação simbólica do que, propriamente material, ainda que seja difícil desvincular as duas coisas no sistema capitalista. A comunicação passa a ser um método, uma técnica, uma tecnologia de preservação cultural.

No entanto, vivemos uma situação de concentração da produção em grandes oligopólios de mídia, que, por sua vez, não contemplam a multiplicidade de vozes e atores que coformam, de fato, a totalidade cultural das nações. Ao mesmo tempo em que existem pesquisadores preocupados em defender a democratização desta mídia de alcance nacional e internacional – o que é de fundamental importância – outros, a exemplo de John D.H. Downing, investigam a importância do que se chama de “mídia radical alternativa”, que são produções independentes, de menor alcance, mas que trabalham com mais propriedade as características locais de uma comunidade. Esta mídia radical depende diretamente do poder de difusão da internet, para que o conteúdo tenha um maior alcance possível, ainda que nunca seja o mesmo de uma rede de televisão, por exemplo.

Segundo Downing, existe uma lacuna nas ciências sociais aplicadas referente à pesquisa sobre a mídia radical. O que, na opinião do pesquisador, é uma falha grave, vista centralidade que esta mídia pode ocupar na formação e difusão de novas formas de vida e pensamento. Williams defendeu que em um mesmo período histórico convivem sempre diversas temporalidades, sistematizadas no que ele chamou de tradições, instituições e formações. A cultura está sempre em disputa. Ainda que a conformação capitalista da sociedade implique em uma assimetria desproporcional de poder entre as culturas dominantes e as culturas subalternas, existem formas de resistência e negociação que escapam ao domínio dos mais fortes e, inclusive, criam novas formas de significação – que, por sua vez, não são, em si, nem o que os dominadores queriam, nem o que os dominados pretendiam, mas uma síntese das novas apropriações.

Aqui é importante frisar a autonomia dos sujeitos, ainda que se encontrem em situações de opressão, dominação e manipulação de fatores externos a eles. Um dos autores abordados por Downing como centrais no seu trajeto de pensar a mídia radical como um importante âmbito de resistência cultural, é Paulo Freire, cujo projeto de educação pretendia levar em conta o repertório dos sujeitos na construção de um conhecimento democrático, ao invés de ensinar conteúdos verticalmente a indivíduos encarados como vazios. Downing traz ainda Tourine para defender que “o que mede o caráter democrático de uma sociedade é a intensidade e profundidade do diálogo entre experiências pessoais e culturas diferentes”, ressaltando ainda mais a importância da comunicação na construção de uma sociedade justa e igualitária.

Darcy Ribeiro, em “O Povo Brasileiro”, já contava o quão encantados ficaram os índios com a chegada dos portugueses, um sinal de que se a intenção do estrangeiro não fosse roubar o território das tribos, haveria ali uma linda experiência de intercâmbio cultural, sem danos a nenhum dos povos envolvidos. E isso não mudou, pois a curiosidade pela alteridade é intrínseca do ser humano, e vem constituindo nossas identidades ao longo de toda a nossa história na terra.

Os índios da sociedade contemporânea querem fazer seus rituais, querem cultuar seus antepassados, dançar de pé no chão, mas também querem ter Facebook, ver vídeos no Youtube, assistir televisão. O papel do Estado é dar alternativas culturais não só para as comunidades indígenas, mas para toda a população de um País, observada sua pluralidade e as singularidades locais . Deste modo, estaremos incitando o que James Macpherson denominou como poder de desenvolvimento, ou seja, dando “oportunidade para os membros do público usarem e desenvolver suas capacidades”.

*Bruna Rocha é estudante de jornalismo da Facom-UFBA.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s