O índio e o cyberativismo como libertação sociocultural

Um computador ligado à internet e muita vontade de se mostrar como realmente são e como vivem. Essa é a realidade revelada por sete comunidades indígenas: Pataxo Hahahae (BA), Tupinambá (BA), Pankararé (PE), Kariri-Xocó (AL), Potiguara (PB), Makuxi (RR) e Bakairi (MT), tratadas no curta-metragem “Indígenas digitais”, do diretor Sebastian Gerlic.

Na década de 1950, a Escola Culturalista defendia que a cultura podia ser praticada por todos, sobretudo pela comunidade, que era considerada pela burguesia como produtora de uma cultura inferior. Mas com o tempo e com o alargamento do conceito de cultura, foi possível inserir as práticas culturais como cultura. Esse panorama é perceptível nesse documentário, em que os índios são os realizadores e mantenedores da memória cultural de suas comunidades, utilizando a Internet como ferramenta de produção.

No documentário, que tem 26 minutos, os indígenas relatam como celulares, câmeras fotográficas, filmadoras, computadores e, principalmente, a Internet estão sendo ferramentas importantes na busca das melhorias para as comunidades indígenas e para as relações destas com o mundo globalizado. De acordo com os próprios membros das comunidades, a tecnologia é fundamental para mostrar e divulgar o trabalho deles para as pessoas, desmitificando o lugar comum em que geralmente os índios são colocados: como preguiçosos, apáticos e distantes da evolução social e tecnológica do País.

Algumas pessoas não acreditam ou não veem a capacidade autônoma das comunidades indígenas de produzir e exportar a cultura de seu povo. No documentário, os indígenas falam como é a constante luta pela terra e da falta de equipamentos e pessoal para suprir as necessidades básicas como saúde, precariedade da energia elétrica e de medicamentos. O curta é importante também para mostrar o potencial dessas comunidades de serem cyber-ativistas importantes na aproximação das culturas, na busca por seus direitos e contributivos para que sejam respeitados e preservados.

Na opinião do diretor do filme, o que põe estas sete comunidades no papel “diferenciado” tanto nas relações com o homem branco, quanto com o governo e entidades protetoras dos indígenas, é a consciência do papel transformador que as novas tecnologias têm como ferramentas para proteção, divulgação e desmitificação da cultura indígena, para que sejam reconhecidas pela sua pluralidade.

Nos depoimentos, os índios reconhecem o lugar da tecnologia para a melhoria das relações com o outro e o respeito às comunidades, além do incentivo para que todos tenham conhecimento em como usar essas ferramentas, para lutar pela causa do índio, promover os direitos humanos, tendo como lição de casa a preservação da identidade de sua comunidade, o que pluraliza e diferencia as comunidades entre elas e para a ciência do mundo de fora das aldeias.

Outro ponto importante é quando Gerllic dá visibilidade a como o indígena trabalha a linguagem na era digital dentro dos ciberespaços, defendendo a importância do registro das culturas e do acesso às tecnologias para que os índios possam se sentir seguros, pois sabem onde buscar suas melhorias, e assistidos em suas necessidades fundamentais para seu progresso.

Isso é comprovado com a consciência política dessas comunidades e a interação delas entre si e com a comunidade em geral através da rede Índios Online, criada em 2004. A rede já contou com a participação de 500 indígenas de 25 etnias, que publicaram 3 mil matérias, receberam 10 mil comentários e cem mil visitas, constituindo-se como um portal de diálogo intercultural entre sete nações indígenas brasileiras.

Esse portal tem sido relevante para que a imagem e as ações dos índios não sejam deturpadas, como eles mesmos denunciaram. Sendo assim, eles se tornam etno-jornalistas, ou seja, o índio como enunciador da própria história, sem intermediários e sem ruídos, o que geralmente não ocorrem nas coberturas jornalísticas das mídias convencionais.

*Nádia Conceição é jornalista e estudante de produção cultural da Facom-UFBA.

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