Barthes, a construção dos mitos e os desserviços da mídia baiana

Filósofo francês, estruturalista e discípulo de Ferdinand Saussure, Roland Barthes empreendeu um grande esforço em sua trajetória intelectual para analisar os códigos por detrás dos códigos, os signos por detrás dos signos, as intenções por detrás dos textos. Em uma de suas obras mais significativas – Mitologias – inferiu, com muita eficácia, sobre a construção dos mitos semânticos.

Partindo de um conceito saussureano do signo, cuja estrutura é composta por um significado (valor cognitivo) com um significante (representação sensorial), Barthes analisou diversas peças publicitárias da década de 50. Ele observou que a indústria cultural criava novos significados a partir de signos já existentes, em um movimento de permanente reconstrução do imaginário coletivo na direção dos próprios interesses do mercado. Esta manobra de esvaziar o conteúdo constitutivo do signo para transformá-lo em uma parte de uma outra construção semântica e assim sucessivamente, Barthes denominou Segundo Sistema Semiológico – através do qual se constroem os mitos.

Pois bem, o que é que Roland Barthes tem a ver com Salvador-Bahia e seus meios putrefatos de comunicação?

O autor contribuiu visceralmente para a tradição da Análise do Discurso, pois desenvolveu categorias metodológicas para ver além do visto. Apesar de hoje contarmos com outros conceitos teórico-metodológicos mais completos e complexos, o esquema dos sistemas semiológicos de Barthes caiu como uma luva para analisarmos a defectível e imprudente mídia baiana. Dentre o vasto arsenal de equívocos sociais cometidos – diariamente – pelos meios de comunicação do estado (que não ficam muito atrás dos nacionais), me atenho a dois casos, ocorridos recentemente, brindados por coberturas carregadas de simulacros semânticos, de mitos.

O primeiro caso – ou a primeira notícia – foi acerca da prisão de duas jovens da classe ‘média-alta’ de Salvador, acusadas de envolvimento com tráfico de drogas, roubos de automóveis e saidinhas bancárias. Crimes praticados todos os dias, todas as horas, em todas as esquinas do país, mas que ganharam um substancial apelo midiático devido à classe, gênero e cor de suas autoras. Muitos dos principais veículos televisivos, impressos e digitais, acrescentaram também um juízo de valor estético ao tom da notícia: “meninas jovens, de classe média e BONITAS são presas com carro roubado”. Só faltaram falar que eram meninas brancas e “de cabelo liso”. Todas as manchetes posicionaram a situação como se fosse muito incomum que  duas meninas jovens, de boas condições financeiras, praticassem delitos – o que, nem de longe, é verdade. E isto é colocado, paradoxalmente, na mesma balança onde acontece uma total banalização da criminalidade na juventude negra moradora de periferia. Se as meninas fossem pretas, pobres, estava tudo bem. Tudo no seu devido lugar e ninguém seria chamada de bonita na história.

Esta banalização, sobretudo nos últimos meses, tem vindo casada ainda com um discurso pró-redução da maioridade penal: um velho desejo dos segmentos conservadores que dominam e detém os veículos de comunicação do país que, no final das contas, somente visa legitimar o extermínio da juventude negra, que já anda de vento em polpa, para a infelicidade do povo.

O segundo caso, ainda mais recente, foi a morte/assassinato do estudante de Comunicação da UFBA Itamar Ferreira, cujo corpo foi encontrado misteriosamente na fonte da praça do Campo Grande, área central de Salvador. O jovem, recém-chegado de um intercâmbio dos Estados Unidos, foi primeiro filho a entrar na universidade e estava prestes a se formar quando da tragédia. Itamar era homossexual e as circunstâncias em que o corpo foi encontrado (calças abaixadas) apontam para a possibilidade de uma motivação homofóbica no homicídio, no entanto,  pouco ou quase nada se viu problematizado sobre isso nos jornais e telejornais. Ao contrário. Uma série de especulações irresponsáveis (que nem merecem ser reproduzidas) desandou a serem publicadas a todo o momento nas diversas plataformas destes oligopólios midiáticos conservadores. Uma completa falta de bom senso e respeito com a família, amigos e a própria vítima do crime, marcou a linha editorial de toda a cobertura jornalística do caso no estado.

O crime motivado por homofobia, se não tiver havido agressão sexual, é muito difícil de ser provar concretamente. A Polícia, enquanto instituição tradicionalmente enrijecida e reacionária, não dispõe da sensibilidade metodológica para lidar com os indícios desta modalidade criminosa. Os meios de comunicação, entretanto, executados por profissionais supostamente munidos de uma mínima noção crítico-interpretativa tinham (deveriam ter) a obrigação de pautar o debate. Jornalista não dá laudo e nem assina inquérito. Não pode inventar provas,  tampouco dar diagnósticos. Seu dever social é fornecer o máximo de informação possível para que as pessoas tenham material minimamente suficiente para construir opinião sobre determinado acontecimento.

Deformados pela lógica mercantil que tem engolido a função social do Jornalismo, a verdade é que o que estes profissionais fazem é exatamente aquilo que Barthes identificou lá na década de 50. Mais de sessenta anos se passaram, e minorias privilegiadas continuam se valendo do tal do segundo sistema semiológico para retroalimentar a relação degenerativa que estabelecem mediocremente com as maiorias oprimidas.

Aos analistas, deste Barthes até a Era Twitter, permanece a árdua tarefa de decodificar exaustivamente estes mitos, abrindo caminho sempre para que outros possam gozar da libertadora chave interpretativa chamada análise do discurso.

*Bruna Rocha é estudante de jornalismo da Facom-UFBA e integrante da AAC Comunicação, Democracia e Cidadania.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s