Canudos e o drama do sertanejo

O sertanejo é antes de tudo um forte. Esta frase, proferida por Euclides da Cunha, ilustra muito bem o espírito das pessoas que têm que conviver com o drama da seca e da ausência de politicas públicas efetivas para atenuar o sofrimento provocado pela falta d’água na região mais seca do Brasil.

Pois foi justamente no Sertão que em 1896 aconteceu um dos períodos mais negros da jovem República Brasileira, a Guerra de Canudos. O nome guerra se deu por tamanha proporção que os episódios tomaram, mas na verdade não houve guerra e sim uma luta pela sobrevivência por parte dos jagunços sertanejos e uma violenta repressão pelas forças armadas brasileiras que, motivadas pelos interesses dos fazendeiros locais e pelo desejo de uma demonstração de que não haveria mais espaço para a “monarquia” na nova República Federativa Brasileira. Canudos foi formada por Antônio Conselheiro e seus seguidores, basicamente sertanejos pobres que acreditavam que ele seria um enviado de Deus, e que estaria encarregado de levá-los para a terra prometida: terra onde todos teriam iguais condições de sobrevivência.

Após o crescimento do vilarejo, Conselheiro resolve chamar a cidade de Belo Monte, mesmo ficando em um vale, as margens do rio Vaza Barris, rio que proporcionaria água suficiente para matar a sede e auxiliar no cultivo para os mais de 25 mil sertanejos que o seguiam em peregrinação pelo sertão. Essa experiência de sociedade justa incomodava os poderosos fazendeiros da região, que perdiam mão de obra, pois os trabalhadores preferiam ir para Belo Monte a serem explorados nas fazendas. Os fazendeiros resolvem então acionar o governo e informá-los de que haveria uma experiência Monarquista ganhando forças no sertão da Bahia. Lembrando que em 1889, 7 anos antes, o Brasil havia se tornado república.

Para iniciar a investida, era necessário primeiro informar a opinião pública sobre o que era a Canudos, reduto de loucos, monarquistas e ignorantes. Para isso, o governo utilizou jornais da Bahia e nacionais, algumas revistas, a exemplo da Illustrada, revista republicana fundada em 1876, que teve sua circulação até 1898. Illustrada descrevia através de textos e caricaturas os sertanejos como monarquistas, ignorantes e fortemente armados, mostrando que não mediriam forças para reinstalar a monarquia no Brasil. A guerra de canudos durou menos de um ano e teve como saldo de mortes cerca de 25 mil pessoas, sendo 20 mil conselheiristas e 5 mil soldados.  A cidade de Belo Monte foi destruída, porém, foi reconstruída anos após a guerra.  Mas, na década de 70, a população teve de ser realocada, para que no lugar fosse construído um açude, de nome Cocorobó. Apesar de vários protestos de intelectuais a época, que via na medida uma tentativa de apagar esse trágico período da história do Brasil. Canudos hoje é uma pequena cidade construída há alguns quilômetros de onde ficava a antiga Belo Monte.

Canudos, da criação do Parque aos dias atuais

Em 1986, através do decreto nº 33.333 de 30 de junho, foi criado o Parque Estadual de Canudos (PEC), que ficaria a cargo da Secretaria de Educação e Cultura, que, por intermédio da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) executaria a construção e preservação.

A medida foi adotada buscando preservar os locais onde houve o confronto e fatos importantes para relembrar a história do episódio. Paleontólogos, historiadores, museólogos e antropólogos foram mandados ao Parque para buscar vestígios de locais onde aconteceram os confrontos e fatos importantes para relembrar esse importante momento histórico da Bahia e do Brasil.

Hoje, visitar o Parque é fazer uma volta ao passado. Na entrada do parque um guia se dispõe a mostrar todo o ambiente por um valor de 25 reais. Em cada lugar histórico demarcado existe uma placa informativa sobre o acontecimento que ocorreu naquele ambiente.  Essa medida é para que o turista possa conhecer o que de fato aconteceu no lugar. Há também xilografias e exposições fotográficas em alguns locais. Com fotos de canudos a época da guerra e de sobreviventes do confronto. Destaque para a foto de uma sobrevivente. Com traços fortes e semblante pesado a fotografia tirada por Pierre Verger mostra a dureza e a força do povo sertanejo.

A inundação do arraial feita pelo o governo na década de 70, para criar um açude, impediu os turistas, pesquisadores e historiadores de conhecerem o que seria o ponto mais alto da visita: O arraial de Canudos. Local onde ficava o povoado e as igrejas descritas por Euclides da Cunha no livro Os Sertões, sobre a guerra de Canudos. Para além do questionamento político da inundação, o que é fato concreto é a perda histórica. O local seria fundamental para conhecer como e onde viviam os conselheiristas. Uma curiosidade interessante é que quando as águas do açude secam, seja por um processo técnico ou pela seca, Canudos renasce da água.

Conhecer Canudos é descobrir e vivenciar um pouquinho da história do Brasil, é descobrir que apesar da seca e das condições inóspitas de sobrevivência, há um povo forte e trabalhador, que luta diariamente contra a seca e o esquecimento político-social para sobreviver. E que mesmo em meio a toda essa adversidade ele consegue preservar a si e a sua cultura, o sertanejo é um povo nobre!

*Raul Castro é estudante de jornalismo da Facom-UFBA e integrante da ACC Comunicação, Democracia e Cidadania. 

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