Comunicação e resistência no Território do Sisal

O direito à comunicação é um dos pilares centrais de uma sociedade democrática. Assumir a comunicação como um direito fundamental significa reconhecer o direito de todo ser humano de ter voz, de se expressar. (Constituição Federal de 1988)

Comunicar é a forma que a humanidade encontrou para se relacionar entre si, dividindo e trocando experiências, ideias, sentimentos, informações, modificando mutuamente a sociedade onde estão inseridas. Diante desta afirmação, podemos concluir que sem a comunicação seríamos cada um de nós um mundo isolado. É com esse ideal que o território do Sisal tem se destacado pelo seu papel consciente e transformador dos espaços de comunicação e cultura, além de dar ferramentas importantes para a melhoria da comunidade.

Em uma região onde a seca é uma das principais dificuldades enfrentadas pela população, as frequentes estiagens servem de justificativa para a manutenção da situação de pobreza e miséria historicamente fundamentada na má distribuição de terras e na apropriação do poder local por grupos oligárquicos. Apropriação esta que se materializa em todos os aspectos e serviços: crédito, assistência técnica, saúde, poder político, econômico e outros.

Contrapondo a esta dolorosa realidade, a mobilização dos movimentos populares tem se revelado como o grande destaque local no sentido de reverter este quadro de exclusão e dominação política. Os Pólos Sindicais, os Sindicatos de Trabalhadores Rurais, Apaebs (Associações de Pequenos Agricultores do Estado da Bahia), Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais, conselhos e igrejas são algumas das entidades responsáveis pelas mudanças políticas e sociais que vem avançando na região, rádios comunitárias e agências de notícias comunitárias, entre tantos outros.

Em visita ao território, o grupo de estudante e professores da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (FACOM – UFBA) pôde presenciar as estratégias e as dificuldades utilizadas por jovens e comunicadores da região do Sisal, passando pelas cidades de Retirolândia, Valente, Santaluz, que driblam todo momento as adversidades do local e as intensas interferências do poder local e muitas vezes nacional.

Essas interferências foram sentidas e combatidas pelos representantes da Rádio Comunitária Santaluz FM. A rádio foi fundada em 1998 e tornou-se um veículo que satisfez aos interesses da população, indo de encontro aos interesses de organismos de comunicação e grupos políticos reacionários que privilegiam minorias dominantes. Em seus quase 10 anos de existência a Santaluz FM busca monitorar as ações dos poderes legalmente constituídos possibilitando que o público ouvinte possa ter acesso às informações e decisões que norteiam a vida social de toda a comunidade sertaneja.

Os realizadores da Santaluz FM são exemplo de que a persistência é o caminho para quem não conta com o auxilio das instâncias de poder, mas que tem um ideal firme a conquistar. A rádio foi perseguida pela Agência de Telecomunicações (ANATEL), pois não possuía autorização para funcional, autorização conquistada após muitas fechadas de portas e tomada de equipamentos pelos órgãos responsáveis pela regulação no país.

De acordo com o Edisvanio Nascimento, diretor Executivo e locutor da rádio, a Santaluz sempre ocupou um lugar de destaque na comunidade, pois seu interesse é mostrar o papel transformador da comunicação na vida das pessoas e em suas comunidades. “Temos sempre a preocupação de levar a informação sem partidarismo. É para isso que serve uma rádio Comunitária e é por isso que estamos há tanto tempo nessa luta diária, hoje em condições bem melhores, pois conseguimos nosso registro, mesmo assim ainda lutamos para ter uma sede própria, pois uma das nossas maiores despesas é com aluguel”, afirma.

Essa questão é mais complexa do que é possível imaginar, os meios de comunicação comunitária no Brasil tem passado maus bocados. De acordo com especialistas no assunto, a grande problemática dessa questão é a regularização das leis que permitam o funcionamento deles. As Rádios Comunitárias possuem uma lei do ano de 1998 (Decreto 2615, para Lei 9742/97), que é ultrapassada, segundo o jornalista Arthur Willian. Ele afirma ainda que a lei precisa ser mudada. “Essa Lei é um retrocesso, todos que necessitam dela reclamam e não são beneficiados”.

Outro veículo de comunicação comunitária presente na história de resistência da região Rádio Valente FM, que tem a APAEB (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira) como gestora.  A emissora tem como diretrizes a prestação de serviços de utilidade pública, que é feito através da informes à população e discussão de fatos do dia a dia do município.

Além do grande valor das 19 rádios comunitárias da região do Sisal, é importante destacar o papel realizado pela associação de grupos de moradores que buscam informação e melhorias de suas vidas, desenvolvendo assim a comunicação sindical, mais preocupada com uma categoria específica. A que mais tem se destacado é a APAEB.

A APAEB é uma associação sem fins lucrativos, fundada em 1980, após uma mobilização ocorrida no final da década de 70, quando os agricultores do semiárido fizeram uma grande manifestação viajando até Salvador para pedir o fim do imposto que pagavam ao vender nas feiras livres o produto excedente da sua agricultura de subsistência caseira. Além de apoiar a rádio comunitária de Valente e integrar a programação com o programa radiofônico Conversa da Gente, a associação utiliza de outros meios de comunicação para informar seus associados e com a população em geral: o Boletim informativo Folha do Sisal, com tiragem de 4.000 exemplares, distribuídos localmente e para todo o Brasil e exterior e o boletim semanal Folha da APAEB, dirigido aos funcionários e comunidade em geral.

Jovens atuantes e a comunicação como um futuro esclarecedor

Apesar de ser pouco conhecida na cidade em que é sediada, Retirolândia, a 230 km de Salvador, a Agência Mandacaru de Comunicação e Cultura tem ganhado destaque na região onde atua e tem sido um agente de conscientização e capacitação de jovens para o mercado da comunicação comunitária e promoção da cidadania e cultura.

Iniciada como um sonho de um grupo de jovens mobilizadores da Região Sisaleira, com o apoio e assessoria do Movimento de Organização Comunitária(MOC), a Mandacaru tem sido propagadora dos princípios da comunicação comunitária na região, além de ser um grande seleiro de profissionais da área para outros veículos de comunicação, incentivando jovens para que cada vez mais se insiram nas universidades para futuramente serem agentes transformadores da realidade sociocultural dos municípios em que vivem.

Na vanguarda desse movimento de consolidação da comunicação comunitária está o MOC, que se diferencia das grandes corporações da comunicação na Bahia por ser uma organização não governamental sediada na cidade de Feira de Santana e que busca contribuir para o desenvolvimento integral, participativo e ecologicamente sustentável do semiárido baiano, desenvolvendo ações estratégicas nas áreas de educação do campo, fortalecimento da agricultura familiar, água e segurança alimentar, criança e adolescente, gênero, comunicação e políticas públicas. O MOC é um dos grandes apoiadores das manifestações de comunicação presentes no território do Sisal.

*Nádia Conceição é jornalista, estudante de produção cultural da UFBA e integrante da ACC.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: