MENINAS DIGITAIS: JOVENS ESTUDANTES BUSCAM INTEGRAR MULHERES AO CENÁRIO TECNOLÓGICO

Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do IBGE, apenas 20% dos profissionais que atuam no mercado de TI são mulheres

por Andressa Franco

Dos estudantes matriculados em cursos de computação no país, as mulheres são apenas 13,3% do total, segundo o Censo da Educação Superior de 2016. Mesmo sendo minoria na área, 51% das mulheres afirmam já terem sofrido discriminação em seu ambiente de trabalho. Entre os homens, este índice é de 22%. Os dados foram fornecidos pela UPWIT (Unlocking the Power of Women for Innovation and Transformation ou, em português, Destravando o Poder das Mulheres para Inovação e Transformação) em 2018. De acordo com a ONU Mulheres Brasil, também em 2018, apenas 25% da força de trabalho da indústria digital é feminina.

Foi com esse cenário que Isa Neves, professora do Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia da UFBA, se deparou ao observar que todos os seus colegas do Bacharelado eram homens. A única exceção além dela mesma era outra professora, sendo ela a única mulher negra dentre esse rol de professores.

Diante dessa inquietação igualmente presente em meio aos seus alunos, a professora deu início a uma pesquisa com o objetivo de avaliar a inserção das mulheres negras na área de ciência e tecnologia na UFBA após os 15 anos de vigência das políticas de cotas. A partir dessa perspectiva, surgiu o curso de extensão “Introdução à Compreensão Básica da Informática e Ferramentas do Google”, exclusivo para mulheres e com a proposta de debate sobre gênero, raça e classe. 

“Eu faço muitas matérias onde as turmas são compostas por homens em sua maioria. Quando a gente está em um ambiente misto, acontece muita interrupção por parte dos homens; pesquisas mostram que as mulheres são mais interrompidas. Então, às vezes, acontece de você querer se expor, mas o ambiente é muito masculino e sua voz parece fraca. Quando a turma é toda de mulheres, a gente se identifica e é mais fácil por isso.”, disse Estefane Luz, 18, aluna do BI em Ciência e Tecnologia e bolsista da professora Neves, que ministra o curso e também faz parte do Projeto Meninas Digitais.

Universidade como patrimônio da população

Mulheres com diferentes histórias decidiram se inscrever no curso. É o caso de Daniela Almeida, que saiu do emprego um mês antes das aulas e estava em busca de novos conhecimentos; da estudante Doroti Troccoli, que está se preparando para o Enem; ou de Lorena Carvalho, estudante do 4º ano no ensino técnico de eletrotécnica, que sempre teve interesse nessa área. 

“É de extrema importância a inclusão de mulheres negras no meio tecnológico para que, com o tempo, deixemos de ser julgadas como inferiores. Eu me sinto confortável em poder estar em um ambiente de apoio ao meu interior, como mulher negra, e que dê suporte para que eu me sinta inteligente e necessária”, pontua Carvalho.

No entanto, há uma coisa em comum entre todas as inscritas: nenhuma delas cursa ensino superior na UFBA, o que é um requisito para participar da iniciativa. Além de discutir sobre a temática de gênero, raça e tecnologia, elas aprendem informática básica: desde ligar o computador e acessar a internet até ferramentas do Google, como o Google Docs e o Google Planilhas, recursos solicitados no mercado de trabalho.

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 “A ideia é que mais pessoas possam estar galgando esse espaço da UFBA. A gente observa que existe uma gama de pessoas da sociedade brasileira, hoje, que não tem a oportunidade de ter em seu currículo um diploma de nível superior. E eu acredito que, na relação entre homens e mulheres, as mulheres ainda são desprivilegiadas, porque elas são logo canalizadas para ser donas do lar. Então, a proposta de dar oportunidade para esse público externo é exatamente para que elas possam conhecer a dimensão de uma universidade, o que é possível ser feito aqui e, mais do que isso, que elas estão completamente aptas a estar aqui também. É uma abertura de visão da perspectiva da universidade como um patrimônio da população, e não somente de pessoas que tiveram a oportunidade de estudar e, por isso, obtiveram uma vaga aqui. A ideia é realmente escancarar as portas da universidade para as mulheres com diversos enfoques”, explica Neves.

Roma Negra

O curso de extensão “Introdução à Compreensão Básica da Informática e Ferramentas do Google” debate, além do cenário feminino, visando a um recorte voltado para as mulheres negras onde, segundo a estudante Thaís Cardoso, 19, que também ministra o curso como bolsista da professora Neves, é possível dialogar numa perspectiva de empatia, de entendimento do que cada uma ali vive, por compartilharem uma categoria macro. “A gente está trabalhando com mulheres negras e pobres. Portanto, eu acho que todos esses recortes que a nossa turma tem já se diferencia muito de uma turma mista”, disse a estudante do BI de Humanidades.

Mesmo cursando uma área em que garante haver uma paridade de gênero, ou até uma predominância das mulheres, Cardoso ministra o curso junto a Estefane por perceber que não há como falar sobre a não presença das mulheres na tecnologia sem discutir a teoria por trás. “Eu acho, no meu lugar de mulher negra, que elas precisam estar nesses espaços. É compreensível que muitas mulheres, às vezes, até ingressem em cursos de exatas, de tecnologias, mas não terminem, porque se sentem extremamente desconfortáveis em um ambiente que o tempo todo está te oprimindo. É cansativo ficar dizendo que a gente tem o direito de estar ali, mas a gente precisa fazer isso porque ninguém vai fazer. A gente não vai conseguir fazer isso de casa, só imaginando possibilidades sem dar a nossa cara a tapa”.

Neves afirma que, vivendo na Roma Negra, visto que Salvador é a cidade mais negra fora da África, seu sonho é desconstruir a contradição dos negros fora dos lugares de destaque, realidade que atribui à falta de preparo das pessoas negras para ocupar esses espaços. “Minha perspectiva é caminhar com elas até o ponto de uma dizer ‘graças aquele curso voltado para mulheres negras, o meu horizonte mudou’”.

A proposta de o curso ser voltado para mulheres negras é pensando no fortalecimento dessas mulheres para assumirem possíveis lideranças nas áreas de ciência e tecnologia. No entanto, a professora garante que o objetivo não é fazer com que foquem apenas em ciência e tecnologia, e sim apresentar-lhes essa área. “Se ela sentir o encanto, o desejo, eu vou dizer ‘E aí? A porta tá aberta, vamos lá!’”, conclui.

Meninas Digitais 

O projeto Meninas Digitais – Regional Bahia é um dos polos do Programa Meninas Digitais, chancelado pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC), entidade que atualmente tem sua direção na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Foi em 2016 que a Regional Bahia nasceu e, de acordo com o site oficial do programa, tem como principais objetivos aumentar a visibilidade dos problemas relacionados ao gênero e Tecnologia da Informação (TI), fomentar a participação e inclusão de mais mulheres na tecnologia, aglutinar iniciativas do estado que fomentem a participação feminina na TI e atuar como projeto norteador para criação de novas iniciativas parceiras do Meninas Digitais – Regional Bahia.

Paloma Batista, 19, também aluna do BI de Ciência e Tecnologia, integra esse grupo. A jovem foi aluna da turma mista do Curso de Iniciação à Programação (CIProg) 2018.2, no qual foi incentivada por suas monitoras a compor esse grupo, atuando nos cursos do CIProg, porém, dessa vez, nas turmas exclusivas para mulheres, onde percebe maior interação das meninas sem medo de julgamento. “Acredito que é a representatividade que iniciativas que promovem a inclusão de mulheres ao meio da tecnologia inspiram que ajuda no processo de permanência na área. O PyLadies, o Meninas Digitais, o Rails Girls, todos são projetos que formam uma rede que acaba se fortalecendo mutuamente. Quanto aos desafios, eu penso que os dois maiores seriam a atração de mulheres para ocupação desses espaços, como também conseguir a permanência delas. Eu nunca tinha pensado realmente em entrar para área de Tecnologias de Informação, afinal, não é uma opção facilmente apresentada para uma garota que veio do interior da Bahia, mas, atualmente, eu sei que isso já se tornou uma parte do que eu sou”, conta Batista.

O CIProg possui uma cota de 75% das vagas para mulheres da comunidade externa à UFBA, como tentativa de abarcar principalmente as meninas que ainda estão no ensino médio. Já o Programa Meninas Digitais tem projetos de promoção do grupo em escolas públicas e eventos. A iniciativa visa a mostrar que a Universidade não precisa ser um universo distante do delas e incentivar a inserção na área.

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