Semana é marcada por protestos após enterro de Ágatha Félix, no último domingo (22)

Foto: Gabriel Barreira/G1

Além do Rio, São Paulo, Recife e Rio Grande do Sul também contam com mobilizações de ativistas

por Marcos Felipe

A última segunda-feira (23), dia seguinte ao enterro da menina Ágatha Félix, de 8 anos de idade, foi marcada por manifestações na cidade do Rio de Janeiro. Uma delas se concentrou em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), na qual estiveram presentes, entre os manifestantes, dois tios da criança.

Segundo parentes, testemunhas e o motorista da Kombi em que Ágatha estava quando foi atingida, no Complexo do Alemão, o disparo foi feito por um policial militar, mas a corporação nega. O motorista assegurou, ainda, que, no momento em que aconteceu o crime, não havia tiroteio.

A investigação está sob responsabilidade da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que deve fazer, na próxima terça-feira (1º), a reconstituição da morte de Ágatha.

No Aterro do Flamengo, complexo de lazer carioca, 57 cruzes, cada uma com o nome de uma criança de idade entre zero e 14 anos, contabilizam o número de vítimas de balas perdidas disparadas por policiais ou traficantes em comunidades do Rio desde 2007 até o atual momento.

Na última sexta-feira (27), movimentos sociais organizaram novos protestos pelo país: No Rio de Janeiro, a concentração começou às 17h na entrada da Grota, perto da Vila Olímpica Carlos Castilho. A Baixada Fluminense também participou, o encontro foi marcado para as 17h30, na praça Direitos Humanos, em Nova Iguaçu.

São Paulo, Rio Grande do Sul e Recife também se mobilizaram, em manifestações, pela morte de Ágatha. Um manifesto único foi escrito para ser lido durante os atos.

A seguir, o manifesto na íntegra:

Justiça para Ágatha! Queremos o fim do genocídio do povo negro!

Foi um tiro de fuzil pelas costas que apagou o sorriso de Ágatha Félix

Ágatha Félix, de 8 anos, foi assassinada com um tiro de fuzil nas costas no dia 20 de setembro no Complexo do Alemão, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, no Brasil. Ágatha, há uma semana não está entre nós, há uma semana perdeu a vida por causa da falsa guerra às drogas, por causa da polícia que nos vê apenas como o corpo inimigo. Mas, nós, mães, familiares, moradores de favelas periferias e apoiadores do Brasil e do mundo estamos aqui pra dizer não a essa política racista, não ao assassinato de nossas crianças, de nossos jovens, de nosso povo negro, favelado e pobre.

A menina Ágatha, infelizmente, não foi a primeira a ser assassinada pela política de confronto nas favelas do Rio de Janeiro. Só este ano foram 17 crianças baleadas e 5 delas morreram por causa de um governo que todos os dias declara que a polícia deve invadir a favela e atirar. Por causa de um governador que, inclusive, comemora cada uma dessas mortes.

Nessa dita guerra às drogas, alguns até aceitam que helicópteros e caveirões sejam usados para dar tiro em escola de pretos e pobres. Não consideramos isso normal e nem aceitável! Não faz sentido continuarmos seguindo nossa vida como se nada estivesse acontecendo. Estamos morrendo. Nossas casas, famílias e amigos sendo violados cotidianamente por um Estado racista.

Nossa arma sempre foi a solidariedade e o apoio aos familiares de vítimas, mas as vítimas já chegaram a um número muito alto, são exatas 1.249 mortes. Nossas redes não estão dando conta de um ataque amplo, total e sistemático de um Estado que executa, elimina e desaparece com corpos pretos todos os dias. Nos dias de operações, sofremos um tipo de greve sem querer e de interdição ao direito à vida. Somos obrigados a ficar em casa e é impactante para nós que colocamos o sustento na mesa. Alguns ainda sofrendo com a possibilidade do desemprego, saem de casa para trabalhar mesmo diante de intenso conflito.

Se você quer estar junto com a gente e está vendo que estamos sofrendo com um intenso conflito irracional, pare de girar essa roda do capital neste dia. Se é patrão e/ou chefe de departamento, libere seu funcionário, poste em todas as redes sociais e contribua para o fortalecimento da luta contra o genocídio sistemático do povo negro. Basta de indignação apenas em discursos superficiais, precisamos de ações diretas para combater um Estado racista, classista e violador.

Convocamos a todes que se sensibilizam com a causa das favelas e do povo negro para que façam paralisações, manifestações, que gritem contra o genocídio a cada vez que uma operação é deflagrada dentro de nosso lugar de afeto, de vida, de cultura, que é a nossa favela. São necessárias medidas efetivas! Exigimos que parem as operações policiais em favelas e guetos nas periferias brasileiras. Exigimos o fim do genocídio do povo negro.

A nossa luta é pela sobrevivência do nosso povo, é pela chance de chegar em casa vivos depois de um dia extenuante de trabalho. É pela possibilidade de ver nossas filhas e filhos crescendo sem que uma bala de fuzil interrompa mais uma vida.

Salve São Cosme e São Damião, Viva os Erês! É pela vida de nossas crianças!!! Favela vive e resiste!!!

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