O caso da menina Ágatha na Folha e no Estadão: uma breve análise de títulos

por Andressa Franco e Maria de Moura

A morte de Ágatha Felix, 8 anos, foi acompanhada através da televisão, dos jornais e das redes sociais ao longo da semana. A menina foi atingida por uma bala de fuzil na madrugada do sábado, durante ação da Polícia Militar do Rio de Janeiro no Complexo do Alemão.

A repercussão do caso gerou debates como a retirada do excludente de ilicitude do Pacote Anticrime apresentado pelo Ministro da Justiça Sérgio Moro. O tempo que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, levou para se manifestar também chamou atenção. Ágatha é a quinta criança morta por bala perdida no Rio esse ano.

Diante do ocorrido, o CCDC se propôs à analisar, de maneira breve e introdutória, as primeiras notícias publicadas online por dois dos maiores jornais do país: Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. 

Títulos

  • “Menina de oito anos morre baleada no Rio de Janeiro” (Folha de S. Paulo, 21/09/19)
  • “Morre criança baleada durante ação da Polícia Militar do Rio de Janeiro” (Estado de S. Paulo, 21/09/19)

Enquanto o Estadão entrega que a morte de Ágatha foi provocada por ação da polícia, a Folha prefere noticiar no título apenas a morte, omitindo a autoria dos disparos. O único detalhe que a Folha entrega ao leitor no primeiro momento é a idade da criança.

Linha Fina

  • “Ágatha Félix foi atingida nas costas dentro de um veículo na noite de sexta (20)” (Folha de S. Paulo, 21/09/19)
  • “Menina de oito anos foi atingida por bala de fuzil; polícia alega que foi vítima de disparos ‘simultâneos’ e que vai abrir um procedimento para apurar circunstâncias da morte” (Estado de S. Paulo, 21/09/19)

Mais uma vez a Folha trouxe menos informações do que o Estadão no subtítulo, priorizando a região do corpo em que a menina foi atingida, mas agora já revelando seu nome. A folha também adiciona onde e quando Agatha foi atingida.

Já o Estadão continua sem revelar a identidade da criança, só agora traz sua idade. A nova informação está na arma que a polícia efetuou os disparos, um fuzil, mas dessa vez apresentando a versão da mesma e a abertura de uma apuração para investigar as circunstâncias da morte. Diferente da Folha, ainda não adiciona data, horário ou outros detalhes da morte, priorizando a autoria do crime.    

Lead

  • “Ágatha Vitória Sales Félix, 8, morreu na madrugada deste sábado (21) no Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Ela foi atingida na sexta (20) por um tiro nas costas quando estava dentro de uma Kombi que transitava pela Fazendinha, no Complexo do Alemão.” (Folha de S. Paulo, 21/09/19)
  • “RIO – Uma menina de oito anos morreu na madrugada deste sábado, 21, após ser atingida por um disparo de fuzil durante ação da Polícia Militar do Rio de Janeiro no Complexo do Alemão na noite da última sexta-feira. A morte de Agatha Vitória Sales Félix foi confirmada pela direção do Hospital Estadual Getúlio Vargas.”  (Estado de S. Paulo, 21/09/19)

A Folha começa com os detalhes da morte, não mais com o momento em que foi atingida, informando o Hospital em que a menina morreu. Em seguida a Folha repete informações que já havia disponibilizado no título e na linha fina. A prioridade do jornal foram as informações básicas da morte, chegando ao lead sem mencionar a Polícia Militar.

O Estadão adiciona hora, data em que Ágatha morreu, informações que ainda não estavam disponíveis no título e na linha fina da notícia. Mas o jornal também retoma informações que já havia revelado: a autoria e circunstâncias dos disparos omitida até esse momento pela Folha. Também diferente da Folha, optou pela confirmação e local da morte no final do lead, quando finalmente divulga o nome da criança.

O veículo também amplia o repertório do leitor ao inserir hiperlinks nos termos mais chamativos desse primeiro parágrafo da notícia. Assim, o veículo direciona o leitor à mais informações do ocorrido, como no hiperlink “fuzil”, e também à notícias semelhantes, como nos hiperlinks “Polícia Militar”, “Rio de Janeiro” e “Complexo do Alemão”

Após as análises, pensamos que os veículos priorizaram de maneira diferente as informações. Ao passo em que, no primeiro momento, a Folha omite informações importantes para a compreensão da problemática em torno do ocorrido, o Estadão se preocupou em destacar a responsabilidade pela morte de Ágatha.

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