NOVEMBRO NEGRO: CONHEÇA E CONSUMA MÍDIAS NEGRAS

por Andressa Franco e Everton Ruan

O dia 20 de Novembro está marcado na agenda do Brasil como o Dia Internacional da Consciência Negra. As atividades de muitos coletivos que defendem e discutem a pauta racial e negra são visibilizada e eventos são promovidos. O Novembro não é apenas um mês, mas um espaço que intensifica os debates sobre narrativas da população negra.

O fato de Salvador ser considerada a Roma Negra não é uma novidade, a capital baiana tem muitos aspectos culturais com influência africana, sendo o centro da cultura afro-brasileira. Neste Novembro Negro, o CCDC se propôs a apresentar algumas das mídias negras da nossa cidade. São veículos independentes, comunitários, que priorizam as narrativas que dão voz ao povo preto, que utilizam a comunicação como ferramenta de denúncia, que democratizam o acesso à informação e produzem conteúdo.

De acordo com o art. 19 da Declaração Universal dos Direito do Homem (1948), “[…] todo indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras” (Assembleia Geral das Nações Unidas, 1948, Art. 19). A comunicação é um direito, e exercer esse direito é o que essas mídias têm feito.

PORTAL BLACKFEM

O Portal BlackFem surgiu como página no Facebook em 2014 para levar conteúdo voltado para pessoas negras. Na época, com um alcance de mais de 20.000 curtidas, apenas duas pessoas cuidavam de tudo: Isis Almeida e Lavínia Oliveira, atuais coordenadoras do Portal que hoje conta com meninas negras de todo o país.

Foi no primeiro semestre de 2018 que aconteceu o primeiro processo seletivo que alavancou o BlackFem de apenas uma página para o portal no formato que funciona hoje. O Instagram é a rede mais utilizada para divulgar os conteúdos produzidos internamente, como as ilustrações, as opiniões e os textos, além do Facebook e do Twitter.

Mas, graças a uma vaquinha, o grupo também tem um site de domínio próprio, o portalblackfem.com.br. É o que conta Lara Carina Amorim, 25, que integra a equipe como colunista desde o primeiro processo seletivo. “A partir do Instagram a gente consegue entrar em contato com nosso público alvo, que são adolescentes e jovens negras. E é exatamente por conta de esse público estar dominando essas mídias sociais, que a gente acaba utilizando prioritariamente ela”.

Desde o início, o projeto definiu que produziria conteúdo voltado para jovens e adolescentes negras. Existe uma preocupação em construir os textos com uma linguagem acessível e imagens que as façam se identificar. “A gente pensa a partir da nossa própria experiência de meninas e jovens negras que não tiveram acesso à determinadas discussões exatamente por elas não serem trabalhadas em uma linguagem que seja acessível pra gente”, explica Lara.

Para realizar esse trabalho, as jovens também enfrentam algumas dificuldades, a começar pelo racismo. “Nós nos propomos a criar um conteúdo que é específico para pessoas negras, então a gente já vai contra essa ideia hegemônica que nos coloca num local de não pertencimento”.

Do racismo partem outros obstáculos, como o financeiro, como ter tempo para dar conta das demandas do portal enquanto equilibram com a intensa rotina de trabalho e estudo. “A gente faz um grande esforço para que o portal continue, é abrindo mão de algumas coisas para dar conta das demandas do portal. Porque a gente acredita nesse projeto e percebe o potencial dele de transformar a vida de garotas que são o que a gente já foi um dia, e a gente não teve um espaço na mídia que produzisse conteúdo voltado pra gente”.

O Portal BlackFem funciona de maneira coletiva, com o esforço de toda a equipe composta exclusivamente por mulheres negras que acreditam no projeto e enfrentam tanto o desafio de as mídias negras não serem tão conhecidas até as vivências em uma sociedade racista.

Com o trabalho “de formiguinha” e muita ajuda, elas fazem a divulgação alcançar diversas partes do Brasil. “Essas mídias são fundamentais para o povo negro, principalmente quando a mídia hegemônica, essa comunicação de massa, constrói uma imagem que reforça todos os estereótipos construídos. E a gente está indo contra a maré, contra a corrente, construindo nova forma de conhecimento, nova forma de as pessoas negras se enxergarem e isso é muito importante. É bom para nossa autoestima, é bom para gente se enxergar no espelho e perceber que somos muito mais do que o racismo quer que a gente veja”.

REVISTA QUILOMBO

Criada em 2016 por iniciativa de militantes do Movimento Negro na Bahia, a Revista Quilombo é um editorial independente que tem como objetivo divulgar agendas e produções de ativistas e coletivos sobre o debate racial. A temática é a mesma na versão impressa e no portal online, ampliando os espaços de comunicação negros, principalmente na mídia impressa.

No dia 21 de Novembro, foi lançada sua 4ª edição com o tema “Extermínio da Juventude Negra”, e a proposta do projeto, que foi possível mediante o Edital 01/2019 da Década do Afrodescendente, com a formação de 32 jovens que receberam seus certificados na cerimônia de lançamento. Formação voltada para a comunicação como instrumento de denúncia e combate ao genocídio da juventude negra, além do incentivo ao uso da informação e da articulação comunitária como ferramenta para defesa dos direitos humanos e na luta antirracista.

A Secretária de Promoção da Igualdade, Fabya Reis, presente no evento, relembrou as origens do Novembro Negro frisando sua importância, e fez um alerta para a situação atual do país. “Nós não temos uma democracia racial no Brasil, portanto a nossa resistência precisa seguir organizada. É isso que a gente traz: a luta ancestral e a luta de resistência atualizada em cada desafio, em cada sonho e meta que a gente estabelece para o povo negro brasileiro, para que no novembro a gente visibilize”, disse a Secretária.

Para colaborar com a Quilombo, que se considera uma mídia negra comunitária, não é necessário ser jornalista ou profissional na área da comunicação, a Revista é um projeto de comunicação no qual todos que estejam dispostos a escrever sobre a narrativa negra podem participar e publicar seus textos. “A importância da Revista de fato é que o preto assuma seu lugar de fala, que a preta assuma seu lugar de fala” pontuou Lucas Leão, um dos jovens que participou do projeto.

A editora Ivana Sena, em discurso para os presentes e se referindo aos jovens e adolescentes que produziram a revista, falou como a Quilombo tem a cara da periferia. “A mãe de vocês vai ler e entender, está muito acessível”. A democratização do acesso à informação é um discurso comum e prioritário de todos esses grupos, coletivos e projetos: o acesso. Trazer o povo preto para o debate, principalmente quando se refere à sua própria história. O principal resultado do alcance do conteúdo produzido é falar do que está acontecendo no mundo, no país, no estado, na cidade, de forma simples e objetiva.

Ou até mesmo, como muitas vezes é o caso do Portal BlackFem, trabalhar um assunto que academicamente é difícil de ser discutido com grupos que estão fora da universidade, e transformar a linguagem desse conteúdo para que qualquer pessoa entenda.

INSTITUTO MÍDIA ÉTNICA

Criado em 2005, através da insatisfação de estudantes de comunicação com a falta de representação da população negra na mídia, o Instituto Mídia Étnica promove projetos para assegurar o direito humano à comunicação, como formações de ferramentas tecnológicas para os grupos socialmente excluídos, como a comunidade afrodescendente.

Com o slogan “Vamos denegrir a mídia: tornar negra”, o Instituto, que nasceu em Salvador, não se restringiu à capital baiana. Em 2015, o Mídia Étnica trouxe para o Brasil a Vojo, uma tecnologia criada nos Estados Unidos para facilitar a comunicação de imigrantes, através da novidade que possibilitava que as pessoas enviassem conteúdo de áudio, texto e vídeos de celulares, mesmo sem o acesso a internet. 

Com objetivo de empoderar as comunidades indígenas e quilombolas por meio da utilização de tecnologias, o Instituto difundiu essa tecnologia e realizou formações com lideranças dessas comunidades em diversos estados, além da Bahia, como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Maranhão.

Em meio a vários projetos, como mapeamento do racismo no carnaval, ocupações na Estação da Lapa, que pautava mídias e tecnologias, formações de empreendedorismos para jovens e oficinas direcionadas a estudantes de comunicação, o intuito do Mídia Étnica é levantar o debate sobre pesquisas de mídias negras e a sua importância.“Nós estamos sempre nesse desafio de denegrir a mídia, conversar com o jovem negro da periferia para dizer que é possível se desenvolver, não só na mídia, mas em todos os espaços da sociedade”, afirma Rosalvo Neto, coordenador do núcleo de audiovisual.

Para levantar as pautas do movimento negro, o instituto lança o portal Correio Nagô, com o slogan “Informação do seu jeito”. O site foge do padrão das mídias tradicionais, com publicações de temáticas direcionadas à população negra, muitas vezes deixadas de lado por esses meios de comunicação.

CORREIO NAGÔ

O Correio Nagô não se reduziu ao site, está no Facebook, Instagram, Twitter e tem sua própria TV digital, que funciona na plataforma Youtube. Com correspondentes em vários estados do Brasil. O portal é um dos maiores produtores de conteúdos sobre a comunidade negra.

Com um público específico, como militantes, artista e intelectuais negros, o portal não consegue a extensão que seus idealizadores desejam: levar os debates raciais para toda população. Para André Santana, editor do site, a falta de um maior alcance é um problema para difusão das pautas levantadas, que são de suma importância para sociedade. “Nós queremos falar para todo mundo, para toda cidade, inclusive para quem não é negro. Seria o ideal falar para todos”, explica.

As dificuldades são muitas. Ampliar o debate e o interesse nas pautas são os principais problemas enfrentados por essa mídia que, segundo Santana, estão na contramão dos veículos hegemônicos, que têm a capacidade de agendar as pautas para o debate público, influenciar a população e formar opiniões. “Os veículos comerciais que têm o poder de agendar debates da comunidade negra não fazem isso. Por isso não desperta o interesse das pessoas. Então nós, a mídia negra que tenta pautar esses assuntos, estamos nadando contra a corrente”.

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