DISPUTANDO REALIDADES COM O CINEMA PERIFÉRICO

SAIR DO CIRCUITO TRADICIONAL PARA
PROPORCIONAR O ACESSO A QUEM VIVE NAS QUEBRADAS

Essa semana aconteceu a cerimônia mais esperada do cinema internacional, a premiação do Oscar 2020. Pelo quinto ano consecutivo, a cerimônia aconteceu com protestos sobre a falta de representatividade das mulheres, negros e indígenas nas indicações para os prêmios. A atriz Natalie Portman, por exemplo, vestiu um traje bordado com nomes de diretoras que não foram indicadas, e a líder indígena Sônia Guajajara, junto com a diretora Petra Costa realizou protestos contra o genocídio da população indígena no Brasil e em favor da preservação da Amazônia.

Esse episódio lembra que a sétima arte está em disputa sobre o seu papel social. E aqui na Bahia ela vem sendo feita nas periferias de Salvador, com a criação e fortalecimento de circuitos e coletivos.  

Uma pesquisa realizada pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) revela dados que parecem ser do século XIX, mas são de apenas três anos atrás. 142 filmes lançados em 2016. Cadeira de diretor ocupada apenas 3 vezes por um negro ou pardo. 28 filmes dirigidos por mulheres. Todas elas eram brancas. Na população brasileira, 51% de mulheres. No elenco dos filmes brasileiros, apenas 40,6%. Negros ou pardos, 50,7% dos brasileiros. Nos filmes, apenas 13,4%.

A Mostra Itinerante Mohamed Bamba (MIMB), na busca por mudar a realidade de elitização na distribuição cinematográfica, exibiu, no último período, filmes em 10 bairros periféricos, como Periperi, Calabar e Barroquinha. Toda a programação atraiu mais de 3500 pessoas para um momento diferente na rotina.

A ideia do evento é sair do circuito tradicional para proporcionar o acesso a quem vive nas “quebradas”. David Aynan, 36 anos, diretor de cinema nascido em Araxá-MG e radicado em Feira de Santana-BA, acompanhou a programação e acredita existir um projeto de imbecilização na sociedade que dificulta o acesso à cultura. “Os filmes que são produzidos para chegar à periferia estão dentro de um projeto colonial de dominação. Assuntos batidos, que tratam da saga do herói branco. Enfim, tudo o que já sabemos”, criticou o diretor. 

A MIMB foi criada em 2018 por 6 mulheres baianas incentivadas pela carência de espaços para assistir cinema nas periferias. “Muitas pessoas falam ao fim das sessões: ‘eu nunca fui ao cinema, é a primeira vez que eu vejo um filme’. Então que movimento é esse que a gente está criando? Será que essas pessoas entram e saem do mesmo jeito?”, narra Daiane Rosário, uma das 6 coordenadoras.

A 2ª edição foi realizada entre os dias 14 e 18 de agosto de 2019, com exibições e oficinas em escolas públicas e centros comunitários. Foram 70 filmes nacionais e internacionais, entre longas e curtas metragens de ficção, documentários, animações produzidos por diretores negras e negros.

Maria de Fátima Cerqueira, gestora de RH, assistiu à exibição do filme “1798: Revolta dos Búzios”, do diretor baiano Antônio Olavo, no último dia de programação. “Eu sou preta, então esse é um ambiente com informações que me interessam bastante. Acho que toda a população de Salvador deveria participar. Os projetos que essas meninas desenvolvem são realmente voltados para que o povo preto se enxergue e acredite que é possível que nós sejamos protagonistas da nossa própria história que, infelizmente, está sendo contada por outras pessoas”.

ORGANIZAÇÃO

Para fazer acontecer, a produção da MIMB contou com o trabalho de mais de 50 profissionais, entre eles voluntários. Uma das voluntárias, a estudante Caroline Candeias, monitora de produção do evento, se encantou com a perspectiva da mostra.“A gente acredita nesse trabalho e sabe que toda construção midiática é de isolamento, de invisibilizar os nossos corpos, a nossa história, nossa cultura. Então a gente desenvolveu um trabalho para enxergar novas óticas e possibilidades de desconstrução da sociedade”.

É preciso organização para dar certo. Todo o trabalho acontece em etapas e é divulgado nas redes sociais. Primeiro os membros da curadoria do projeto vão até os bairros em que pretendem realizar as sessões de filmes para conversar com seus líderes comunitários. Depois disso, essa coordenação monta a programação para atender o que os moradores de cada bairro preferem: exibições para o público infantil, para o público feminino e outras possibilidades. E para que as exibições de cinema negro tenham maior alcance, a programação também inclui espaços centrais, como o Gothe-Institut. 

Entre as escolas que levaram seus alunos para as exibições da mostra, estão a Escola Aberta Calabar, o Colégio Estadual Nelson Mandela e a Escolinha Maria Felipa, especializada em educação infantil afro-brasileira. “Eu achei excelente essa iniciativa, muito importante mesmo. Caminha ao nosso lado na luta pela despolarização das matrizes ancestrais africanas e afro-diaspóricas”, elogiou Ian Cavalcante, diretor da Escolinha Maria Felipa.

Para Márcio Luis Paim, grande incentivador dessas iniciativas, graduado em história com mestrado em estudos étnicos e africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e em educação pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), o cinema tem uma possibilidade transformadora. “A depender da forma como você é apresentado a ele, sua vida pode mudar radicalmente. Quanto mais projetos nas periferias, mais é possível despertar algo nessas pessoas.”, afirma Paim, que tem um perfil no Instagram onde utiliza o cinema como veículo de divulgação e valorização da história da África e da cultura afro-diaspórica.

OBSTÁCULOS

Apesar de contar com um público fiel, que valoriza e divulga a iniciativa como forma de resistência para defender a produção de cineastas anônimos e com poucos recursos, muitas mostras e festivais vêm deixando de acontecer por falta de financiamento. Um exemplo recente é o Coletivo Tela Preta, fundado por David Aynan e Larissa Fulana de Tal.

Há 3 anos, a Revista Lupa publicou a reportagem “As baianas fazem cinema”, na qual o projeto foi descrito por Larissa como uma tentativa de mudar a proposta estética do cinema e discutir cinema negro. Recentemente, os fundadores voltam a conceder entrevista para a Lupa, mas com a má notícia do fim do projeto por dificuldades financeiras e por falta de apoio. Aynan estende a dificuldade de produção para todas as iniciativas com esse formato. “Creio que estas iniciativas são muito poderosas, porém são muito onerosas. Fazer na fé, com pouco recurso, contando com poucos apoios, mostra a força da iniciativa. Mas é desumano com quem dedica boa parte de sua vida para levar às periferias um pouco de cultura”.

Lilih Curi, diretora e roteirista que desenvolve projetos audiovisuais na Segredo Filmes e representou a Mostra Lugar de Mulher é no Cinema na Pós-MIMB, garantiu que não vão esperar por editais do governo federal, estadual ou da prefeitura. “A gente tem que buscar outras maneiras de permanecer, porque é só permanecendo que a gente de fato vai conseguir alguma coisa que transforme de verdade”.

Preocupada com essa realidade financeira, a coordenação da MIMB fez uma campanha de financiamento e arrecadação. O objetivo é captar recursos para realizar a terceira edição da mostra este ano, mantendo a estrutura e a qualidade. “A gente não quer montar um circo armado com um telão. A gente quer levar pipoca, refrigerante, fazer oficina, dar o melhor pras pessoas. Eu acho que, para todos os festivais que acontecem dessa mesma forma, o próximo passo é pensar em como desburocratizar esses editais e a forma de acessar esses recursos”, concluiu Daiane Rosário.

INICIATIVAS

Mesmo com as dificuldades de produção, alguns projetos conseguem se manter e novos grupos estão sendo criados. É o caso d’A Irmandade Filmes, um grupo criativo de autores inspirado no modelo das confrarias negras do Brasil Colônia. O grupo é formado pelos cineastas Everlane Moraes (Pattaki Filmes), Vinicius Silva (Estúdio L) e David Aynan (Palanque Filmes).

A Irmandade Filmes foi criada para fortalecer os laços de apoio entre cineastas parceiros. Além disso, trabalha defendendo obras que vão além do simples entretenimento, mas que valorizam os conceitos estéticos, éticos e políticos como pilares fundamentais na interlocução entre os autores, os circuitos e o público.

Outra iniciativa é a CineQuebradas. A direção do grupo afirma ter um impacto muito positivo ao chegar nos bairros periféricos da capital. “Levar cinema para a quebrada é impactante. Tirar dos espaços elitizados e caros gera um estardalhaço”. As atividades da iniciativa são voltadas para o diálogo sobre a representação de mulheres negras lésbicas/bissexuais em produções e histórias contadas através do cinema.

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