“A música me resgatou, hoje vivo para ela, em prol dela”

Há quem pense que música é apenas um conjunto harmônico de sons, mas ela vai além. Música é escape, fuga do vazio mais profundo, resgate e vida. É assim para a produtora e idealizadora da banda Panteras Negras, anunciada por ela como a primeira banda de música instrumental do mundo, formada apenas por mulheres negras, Marília Franco da Silva, 29, nome artístico Zinha Franco, apresenta sua arte.

Ex-moradora do Engenho Velho de Brotas, Zinha se encantou muito nova por instrumentos musicais. Aos 12 anos ela já tirava um som no cavaquinho. As notas aprendidas através de revistas fizeram dela a primeira mulher da família a tocar instrumentos. Vítima de depressão, Zinha buscou refúgio na criação da banda Panteras Negras, o que a resgatou e se tornou sinônimo de liberdade, além de evidenciar a pouca participação de mulheres negras na indústria musical. 

Quando você começou a tocar instrumentos musicais?

Eu sempre tive gosto para música e sou a única mulher da família que toca. Comecei a tocar instrumento com 12 anos. De início, com cavaquinho, mas não gostei. Com 15 anos minha tia me deu um violão, a partir desse dia, comecei a tirar músicas de revistas, aos 17 anos fui para o baixo e até hoje estou nele. A sonoridade do baixo me instigou, me apaixonei pelo instrumento. 

Como e de quem foi a ideia de criar o grupo Panteras Negras, e por quê?

A banda foi criada a partir de um festival que realizamos em novembro de 2018, chamado “Panteras Negras Com Vida”. A ideia principal do projeto seria uma banda só de mulheres convidando outras cantoras negras, para evidenciar o novembro negro da minha produtora “EstaçãoZinha”. E foi no processo do festival que fui entender que estávamos criando um grupo que poderia ser a primeira banda instrumental de mulheres negras do mundo, mas até aquele momento não tinha caído à ficha. Naquele processo de produção, eu comecei a pesquisar e descobri que não existia outro conjunto de música instrumental formada apenas por mulheres afrodescendentes. Então, o grupo é uma resistência, foi construída no intuito de festejar as mulheres negras do circuito de Salvador e hoje é uma referência porque somos as únicas nesse cenário.

Por que o nome Panteras Negras?

A escolha do nome foi por conta do movimento Black Panther na década de 60, no qual negros nos EUA lutavam contra a opressão. Então o nome veio meio que nesse “caldo’’ do movimento. Dessa forma, a gente quis dar o nome como demos ao festival. É um movimento de música instrumental de mulheres negras. Então, criamos esse nome para dizer que é uma luta política na música. A gente está dizendo: Existimos. Nós estamos aqui. Somos as Panteras Negras da música. 

O que a música representa para a sua vida?

A música me resgatou, hoje vivo para ela, em prol dela. Quando criei a banda, estava com depressão, pensando coisas negativas. Então, a banda, na verdade, me salvou. Se hoje estou aqui nessa entrevista, é porque existe a banda Panteras Negras, pois foi um momento bem difícil da minha vida. Assim, a música representa para mim a oportunidade e a liberdade. Se a gente tem a música na gente, se temos possibilidades de ser o que quisermos, de fazer o que a gente quiser, sem machucar o outro, sem ferir, conseguimos viver bem. Então, a música para mim é isso: oportunidade, possibilidade, liberdade, amor e protesto também. Todas essas formas de interpretar a música também pode ser um protesto para alguma coisa.

Diante do cenário musical, marcado pela baixa presença de mulheres negras atuando com essa linguagem, como você visualiza a importância das Panteras Negras nesse circuito?

Visualizo a importância da banda como o ouro que foi descoberto e alguém precisa cuidar. Temos uma riqueza, ter a banda Panteras Negras é uma riqueza. Eu digo isso porque não foi fácil construí-la, não foi fácil identificar essas peças, não foi fácil o universo conspirar para que na mesma cidade de Salvador, eu conseguisse encontrar hoje quem são as integrantes da banda e poder fazer parte disso, e poder conectar o meu Ori (palavra da língua iorubá que significa cabeça, refere-se a uma intuição espiritual e destino, é o Orixá pessoal, em toda a sua força e grandeza) com essas meninas. Então, eu acho que é de suma importância, de uma extrema relevância, existir a banda Panteras Negras, porque muda todo o panorama musical do Brasil e do mundo. A nossa música é política. Estamos aqui dizendo e reafirmando: Nós existimos. Nós precisamos existir. Cadê as mulheres negras da música? Cadê as mulheres negras tocando instrumentos, colocando para fora tudo o que sentem? Porque quando a gente toca, é para se expressar, para militar, para se conectar com o universo. Então, é isso. Hoje vejo a banda como um patrimônio brasileiro que precisa ser cuidado.

Quantas integrantes tem a banda? Como produtora e baixista do grupo, de que forma é dividida a relação profissional e pessoal?

Uma imagem contendo sentado, pessoa, chão, edifício

Descrição gerada automaticamente

Na banda somos quatro. Eu, baixista, Suyá, guitarrista, Dedê Fatuma, percussionista e Line Santana, baterista. Minha relação com as meninas é maravilhosa, sou amiga de todas e tenho muito que agradecer por essa conexão, pois se criou um laço de amizade. E para além da questão da amizade que existe, também faço a produção artística da banda. Tenho uma relação profissional com elas, a relação onde todas me escutam e são escutadas. Então, existe tanto uma relação de amizade quanto profissional entre nós, respeito e elas me respeitam.

Quais artistas a inspiram?

Os artistas que me inspiram são todos aqueles que por trás da sua arte têm verdade, e não fantasias do mundo das emoções que é um jeito também de se fazer música e há apreciadores desse movimento. Os artistas que aprecio são artistas como Nina Simone, Elza Soares, Elis Regina. São artistas que transpassam, musicalmente falando, através de sons, as sensações que viveram no instrumento. Gosto muito de “Esperanza Squad”, que é atual, jovem, mas que tem também um sentimento muito forte, isso me impressiona.  

O que sente quando está se apresentando?

Eu sinto prazer quando estou me apresentando, muito prazer, porque é um movimento diferente de quando toco com outros artistas, pois no palco estou conectada com minhas amigas, fazendo um som que achamos muito incrível, que arrepia nossa alma, literalmente, e ao mesmo tempo estamos nos divertindo juntas. Por isso, fico muito feliz em ver aquela cena, é de uma felicidade muito grande, pelo motivo de ser inédito para mim e para elas, então, a gente vivencia aquilo. Na verdade, não consigo nem descrever essa sensação, mas é uma sensação muito boa, uma sensação muito alegre, de estar ali, sabe? Se pudéssemos, tocaríamos todos os dias, faríamos shows todos os dias, porque para a gente é muito bom estar juntas em cima de um palco, é muito gratificante.

Quais os prós e contras do mundo artístico?

Os prós é a liberdade que temos de dizer o que pensamos através da arte, de sermos nós enquanto artistas. Porque todo mundo tem uma opinião, mas o artista, além disso, tem o poder de persuadir, de ajudar você pensar sobre determinadas coisas, isso através da música, pintura, literatura e as demais artes. Já o contra, é referente ao cuidado com o que se fala, de como você fala com as pessoas, para não ser contraditório, pois nosso papel não é bagunçar a mente de ninguém, e sim dar espaço para que possamos pensar juntos, refletir sobre o mundo.

O que sua música busca transmitir para o público?

Assim como os artistas que me inspiram, desejo que a minha música toque as pessoas da maneira mais sincera. Desejo que as pessoas consigam sentir o que nós sentimos quando estamos no palco. A sensação de ver algo inédito que ao mesmo tempo te toca. É essa sensação que espero que o público tenha e espero que minha música passe sensações inéditas para as pessoas, sensações com as quais elas vão lembrar daquele show e daquela música.

Como integrante e produtora da banda, anunciada por vocês como a primeira de música instrumental do mundo formada por mulheres negras, qual seu maior desejo hoje?

Eu tenho um desejo muito grande, esse pensamento é compartilhado com a banda, é da gente se expandir. Não só para o mundo a fora, mas o mundo das favelas, queremos ir a Cajazeiras, Pirajá, Periperi, Plataforma, a gente quer ir à Ilha. Queremos ir aos lugares que sabemos que têm pessoas que não conhecem esse tipo de música (instrumental). Quando a gente ensaiava no meu quintal, a varanda ficava cheia de crianças, quando não tinha ensaio elas vinham me perguntar: “Tia, que dia vai ter ensaio?” Porque, para elas, era novidade, mulher tocando.

Em meio aos avanços tecnológicos, quais são os recursos utilizados para atrair o público para os shows e divulgar a banda?

O interessante nosso é que é justamente o inverso, não estamos nesse holofote de busca, sabe?  Muito pelo contrário, está havendo essa procura. Fomos tocar no SESC, lá em São Paulo, eles que ligaram para a gente, está sendo meio automático. Está meio que natural esse processo. O que estamos fazendo é o natural da banda, que é registrar em rede social, volta e meia a gente posta uma coisa. Como cada uma da banda tem seus trabalhos paralelos, assim, cada uma tem sua carreira, que, por si só, já dialoga e se entrelaça com as Panteras.

Atualmente você mora no Rio de Janeiro, por que deixou a capital baiana?

Preta Gil entrou em contato comigo através do Instagram, em busca de montar uma banda de meninas para o projeto novo dela. O monólogo chamado Mais Preta que Nunca, uma peça que se pautou após ela ser vaiada no Teatro Castro Alves de Salvador, pelo uso das palavras mulata e denegrir, a partir disso, ela se preocupou enquanto artista e se perguntou onde estava que não sabia disso, que não se pode mais usar essas palavras.. Ela me pediu auxílio, aceitei a proposta, por isso me mudei para o Rio de Janeiro, para tocar com ela, pois eu precisava sair de Salvador para acessar outras meninas. 

Onde as pessoas que curtem o trabalho das Panteras Negras pode encontrar a música da banda?

Estamos em processo de gravação do primeiro EP, provavelmente, para lançar esse ano. Por enquanto, no YouTube tem a nossa música NZinga que concorreu no XVI Festival de Música da Educadora FM e o público também pode nos escutar na plataforma SoundCloud. Ainda não temos músicas no Spotify. 

Onde a banda costuma se apresentar?

Não temos um lugar fixo. Como cada uma mora em um lugar e tem seus trabalhos individuais também, a gente se apresenta mais quando rola convite, em Salvador ou em outra cidade, aí a gente vai e faz um som. Eu estou morando no Rio de Janeiro, a guitarrista fica mais fora do Brasil, então, só nos encontramos quando somos convidadas para algum evento, ensaiamos e fazemos o show. Nossos encontros são pontuais, ainda não temos uma assiduidade de agenda fixa. Aqui em Salvador já nos apresentamos duas vezes no JAM NO MAM, no Entre Folhas e Ervas, e no TOCA.