“Fazer os direitos humanos é viver os direitos humanos e zelar pela garantia deles”

por Andressa Franco

O Centro de Comunicação Democracia e Cidadania (CCDC) está prestes a lançar um webdocumentário com exibição em festivais e na plataforma IGTV, no Instagram. A iniciativa tem como objetivo viabilizar um conjunto de defensores e defensoras que, no momento, estão sob o risco de terem suas lutas interrompidas, seja pela instabilidade política nacional, seja pelo desconhecimento da comunidade baiana sobre as pautas levantadas por tais agentes.

Lucas Tadeu dos Reis dos Santos é graduando de produção cultural na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, e pesquisador/bolsista do Centro de Comunicação, Democracia e Cidadania. Talu, como é conhecido, faz parte da equipe de produção do webdoc “Humanos por DireitoS”, e concedeu essa entrevista a fim de discutir as temáticas abordadas por ele neste trabalho. A história de vida das defensoras e defensores de direitos humanos, as situações de risco que vivem na Bahia, além do papel da imagem e das memórias na luta por esses direitos são os enfoques da série que lançou seu teaser essa semana nas redes sociais e tem previsão de lançamento para Abril.

A ideia do webdocumentário surgiu como, quando e por quê? 

O webdoc na verdade foi uma oportunidade de colocar alguns ensinamentos do CCDC em prática. Nós temos um núcleo de bolsistas, que desenvolve um trabalho específico nas redes sociais digitais do CCDC, com a produção de conteúdo original no intuito de potencializar nossa atuação. Pensando nisso e nas novas possibilidades de se comunicar, por meio dessas tecnologias, nós visualizamos o Instagram como uma ótima plataforma para fazer o lançamento de produtos que dialogassem com as temáticas de direitos humanos, de forma ampla. Já que estamos falando sobre democratização acreditamos que é preciso praticá-la. De certa forma instrumentalizar nossos meios, nossos caminhos, nossas redes de linguagens, como audiovisual, além da tradicional escrita, é fazer uma parte no processo amplo de democratização. E junto a isso vem a celebração, no ano de 2018, dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que no seu artigo 19 faz uma demarcação importante no que diz respeito à liberdade de expressão, então nós pensamos: como viabilizar uma discussão sobre as pessoas que estão fazendo/zelando pelos direitos humanos na Bahia, uma forma de liberdade de expressão. Fazer os direitos humanos é viver os direitos humanos. A defesa dos povos em vulnerabilidade também te colocam em ponto de vulnerabilização. Então, a ideia do webdoc é essa: trazer algumas histórias, algumas narrativas através de uma experimentação artística, dentro dos princípios que a gente acredita de defesa dos direitos humanos, distribuindo a palavra daqueles que fazem e que estão na linha de frente desta luta.

Houve algum documentário que serviu como referência?

Na linguagem documental como um todo, nós abordamos alguns títulos como referência. Existem algumas produções que são autorais, que tratam muito sobre a questão de vivência e experimentação artística em vídeo, sobre como seria a realidade de minorias políticas, narrativa sobre a realidade do homem negro, da mulher negra, objetos, textos, enfim, materiais como um todo, de pessoas muito próximas. Em primeiro vem o IGGYtv, que produz narrativas paralelas às temáticas abordadas em nosso doc através da linguagem audiovisual. Muito do que toca em “experimentação artística” está na presença desse canal/tv no arcabouço de referências. Alguns produtos que são de fácil acesso, como o documentário Zeferinas – Guerreiras da Vida (produzido pela agência Propeg e dirigido por Márcio Cavalcante), da Prefeitura de Salvador. Outras referências, tão importantes quanto as demais, são o  trabalho de Mayk Brambilla com colagens em técnica mista e conteúdos autorais como os já produzidos por mim ( curtas, fotografias e similares), ainda inéditos nos circuitos públicos.

Quem são as pessoas que o webdoc apresenta ao público?

Com relação às pessoas, eu posso dizer o seguinte: nós fizemos uma sondagem dentro da Bahia, da Região Nordeste como um todo, abrangendo mais algumas situações de destaque nacional, por assim dizer, ou internacional, e coisas que dialogam com as realidades e potências da nossa própria Salvador e Recôncavo. Pensando nisso nós elegemos alguns núcleos que seriam os povos indígenas, das águas (marisqueiras e pescadores) povos de terreiros, povos urbanos, povos de fundo, fecho de pasto e geraizeiros. A partir disso a gente fez uma sondagem de alguns nomes e vou fazer um suspense, porque, o lançamento do teaser estará disponível em breve nas nossas plataformas digitais e deixo esse convite. Tá querendo conhecer? Dá uma olhada! Desculpa o suspense, mas é isso.

Como vem sendo sua produção e como a divulgação é planejada?

A plataforma de difusão principal é o Instagram, mas como metodologia de produção esse é um produto financiado por um edital interno da UFBA, que é o Programa Institucional de Bolsas de Extensão Universitária (Pibiex), um edital incumbido da tarefa de disponibilizar uma verba para que estudantes da rede federal produzam experimentações artísticas. A partir de eleitos por esse edital, nós elaboramos uma equipe de trabalho para o desenvolvimento das atividades e no que diz respeito à organização como um todo, a gestão foi feita por centros específicos, grupos de trabalhos, para a comunicação, produção, captação, montagem, enfim, os esquemas tradicionais da produção de produto artístico, de um audiovisual nesse sentido.

O fato de esse projeto ter sido eleito pelo edital, de certa forma é uma demonstração de apoio da universidade a falar sobre essa temática?

Existe um sentimento de cumprimento, acho que apoio institucionalmente sim, é importante, através da atuação dos profissionais, mas acima de qualquer coisa é a função do dever social que a faculdade tem, que é a devolução através dessas várias formas. A UFBA nesse ponto, especificamente quando vemos legalmente, tem esse dever para com a sociedade, que é da devolutiva, uma vez que temos dinheiro público no financiamento dessas atividades. E a felicidade vem não só para mim, mas também para o CCDC, porque todo o processo de elaboração do projeto, já que é via edital, produção geral, pós execução, foi dada a partir dos núcleos internos do Centro, então é uma alegria compartilhada. Eu penso que o apoio como um todo seria muito mais dessas pessoas que estão ao nosso redor, como Tâmara Terso, Inajara Diz, Bruna Rocha e todas as pessoas envolvidas nesse processo, os entrevistados e entrevistadas e meu amigo Heraldo de Deus também. Esses foram os maiores apoios. A faculdade como um todo, ela possibilitou isso através do recurso, porque sem verba a gente não consegue mobilizar uma equipe desse tamanho. Acho que a UFBA nesse sentido teve o papel de cumpridora de uma lei e nós estamos apoiando nossas vontades a partir de nossa força de trabalho.

Segundo relatório da Anistia Internacional de 2017, o Brasil é o país que mais mata defensores (as) na América Latina, concentrando cerca de 75% dos assassinatos. Explica como é para você, como alguém envolvido nesse cenário e com essas causas, lidar com esses dados e também poder falar sobre eles.

Primeiro é o choque, o pânico, o susto, o medo. Em segundo, a resposta. Além do nosso cotidiano, que estamos dentro dessa porcentagem de possíveis assassinatos, promover um webdocumentário, promover discussões que pautam essencialmente democratização da comunicação, acesso aos meios como um todo, defesa de direitos humanos é a nossa principal resposta a esses números. É mostrar que em frente ao medo não há inércia, e nossa ação é efetiva.

Na sua opinião, qual a conveniência desse projeto no Brasil de 2020?

A realidade desses defensores e defensoras dos direitos humanos está posta frente a um celular, frente a um celular com as palavras dos defensores e das defensoras, e essa é a importância dele em 2020. É um produto que não é um produto unicamente, é mais um apanhado de vivências atravessadas por muitas perspectivas, muitas violências, muitas benesses, muitas coisas boas e ruins e que independente de qualquer coisa, independente da forma de acesso, foram construídas numa troca contínua que é através de saberes ancestrais e contemporâneos.

Já que o formato escolhido para tratar desse assunto foi um webdocumentário, como você vê o papel das imagens e também da memória na luta por direitos?

É engraçado, porque nós temos multireferências de como seria a construção dessas memórias ou o armazenamento dessas memórias, e essa escolha através dessa plataforma, desse recorte dessa plataforma, no caso no Instagram, mas não somente Instagram, no IGTV, há a possibilidade de uma nova leitura. Estamos usando imagens na verticalidade, porque crescemos com álbuns de fotografias que só eram na verticalidade, então a subversão disso para uma linguagem documental na vertical é muito importante. E acima de tudo, não somente a forma como isso está disposto tecnologicamente, enfim, os aparatos e artefatos, mas o que é dito, quem diz e como diz. Então, conseguir de certa forma utilizar o que está na grande escala de produção, de consumo, um smartphone, um celular, o que de certa maneira já faz parte do cotidiano da maioria dos brasileiros e brasileiras com determinado nível de acesso a alguns bens de consumo, é algo sério. Enfim, por conta disso chamamos pessoas para falarem suas demandas sérias, então a memória através da oralidade é ativada, porque existem, por exemplo, entrevistados e entrevistadas que instrumentalizam a oralidade enquanto ferramenta de construção do conhecimento, e o CCDC e nós da produção desse documentário como um todo estamos aqui para demonstrar que as novas tecnologias e as tecnologias ancestrais andam juntas quando falamos sobre tornar comum, sobre democratizar, não somente a comunicação, mas a informação.

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