Série CCDC – Direitos & Saberes

“É um ambiente de violência denunciando a violência, tem uma contradição aí que precisa ser tocada”

Tâmara Terso fala sobre seu TCC: o caso New Hit de 2012 e o que mudou com os anos

POSICIONAMENTO DISCURSIVO, VIOLÊNCIA E CIDADANIA: A CONSTRUÇÃO DO “CASO NEW HIT” NO PORTAL DE NOTÍCIAS G1 BAHIA – Tâmara Terso (TCC)

Por Andressa Franco

Tâmara Caroline Almeida Terso é graduada em Jornalismo, Mestra e Doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporânea na Universidade Federal da Bahia (POSCOM-UFBA). Também se ocupa da coordenação do Centro de Comunicação, Democracia e Cidadania (CCDC/UFBA) e integra o Centro de Estudo e Pesquisa em Análise do Discurso (CEPAD/ UFBA). Nessa entrevista, primeira da série de publicações de 10 trabalhos acadêmicos que dialogam com as temáticas do nosso Centro, Terso relembra o caso da banda New Hit, que deu origem às analises das abordagens de diferentes veículos de mídia do seu Trabalho de Conclusão de Curso da graduação, em 2014, e o que motivou a escolha por esse tema. Além disso, traça um paralelo das análises dessas matérias de quase 10 anos atrás, com a abordagem de veículos de mídia atualmente, pela ótica do feminismo, especialmente do feminismo negro.

TCC (disponível em hiperlink nessa entrevista): Posicionamento Discursivo, Violência e Cidadania: A Construção do “Caso New Hit” no Portal de Notícias G1 Bahia

Por que a escolha dessa temática para o seu TCC?

Antes de fazer o TCC, eu fiz parte de uma ACC (Atividade Complementar) aqui [na Facom] que foi protagonizada pelo CCDC junto com outros professores, mas, sobretudo encabeçada por Giovandro [Prof. Dr. Giovandro Ferreira] e Intervozes. Nós fizemos 6 meses de imersão nas experiências de comunicação comunitária, tanto no semiárido quanto aqui em Salvador, no Engenho Velho de Brotas, contrapondo um pouco o que falava-se sobre essas comunidades na grande mídia, nas mídias tradicionais. Percebendo um pouco do território, percebendo um pouco do trabalho que era feito na comunidade, e então pensar outras narrativas pras populações negras, de mulheres, LGBTQIA+, me despertou muito a partir de fazer essa imersão na ACC, entender o que é comunicação comunitária, o que são direitos humanos. Depois disso, muito mobilizada pela luta feminista e pelo coletivo que eu faço parte, a Marcha Mundial de Mulheres, eu comecei a girar os meus trabalhos já no final do curso pra interseção, comunicação e gênero. E foi fatidicamente durante o processo de cobertura desse crime, o estupro coletivo da banda New Hit contra essas 3 jovens. Então, eu vi a possibilidade de analisar as mídias e já também nessa interface das mídias digitais, como elas estariam cobrindo esse processo, se ainda repetindo o que as mídias tradicionais fazem, pelo que a gente já vinha vendo tanto na ACC, como na própria prática da pesquisa aqui, que era de violação. As mídias tradicionais, sobretudo as policialescas, cotidianamente violam os direitos das mulheres, dos negros, dos LGBTQIA+, das crianças, dos adolescentes. Ou se havia alguma possibilidade de contrapor esse discurso de apelação com uma cobertura mais aprofundada, até pelas próprias possibilidades das redes digitais e do webjornalismo. Então, por ter a possibilidade de ter hiperlinks, de você poder acessar várias outras notícias numa mesma notícia, se havia ali uma possiblidade de cobertura. Infelizmente, o resultado da minha pesquisa no TCC foi de que tanto o G1, como Bahia Notícias cobriu de uma forma que deixou a desejar do ponto de vista de explicitar para população baiana primeiro o que é o estupro, o que é um estupro coletivo, quais são os fatores que levam a essa situação extrema de violência contra a mulher. E os resultados foram negativos nesse sentido. O que aponta naquela época, que foi em 2014, é que ainda esses meios, por mais que estivessem já se apropriando dos recursos da web 2.0, já estivessem numa perspectiva de inovação do ponto de vista da técnica, no discurso ainda produzia muita violação. Mas foi isso, meu TCC foi motivado pela ação do CCDC, foi motivado pelo meu ativismo no feminismo, e foi motivado por tentar fazer um estudo prático de tudo isso que a gente estava acumulando teoricamente, tanto aqui no CCDC quanto na ACC. 

E como foi o processo de produção e pesquisa?

Eu fiz uma análise pensando em como foi o posicionamento discursivo desses jornais. Eu peguei todo o caso, desde a denúncia até a segunda audiência, que foi a audiência que fez com que a população de fato entendesse que ali tinha acontecido um estupro. E foi interessante ver que, só depois da segunda audiência, os meios de comunicação começaram a tratar como estupro de fato, e a essas pessoas, esses artistas, como criminosos. Porque antes sempre havia um discurso de vitimizar os acusados e culpabilizar as vítimas, ou seja, explorar como foi que essas meninas estavam no show, questionar o porquê que elas entraram no camarim, e nunca o porquê de nove caras mais os seguranças interpelarem três garotas dentro de um camarim e cometerem um crime, na cena ali com milhares de pessoas, porque foi ainda no show, no backstage do show e ninguém ter dito nada. Até as próprias palavras “estupro”, “misoginia”, “machismo”, elas nunca foram utilizadas até o segundo julgamento, até a segunda ida ao fórum. E a gente percebeu que essas palavras, essas marcas passaram a ser visibilizadas depois que houve uma ação do movimento social, sobretudo das mulheres da Marcha Mundial de Mulheres, que fizeram um escracho. Que foi incidência na porta da casa desses artistas, fizeram incidência nos dois julgamentos, foram pra porta do fórum com cartazes, fizeram ação direta, que são as peças artísticas que elas encenam do ato do estupro, para chocar as pessoas. E só após isso, da pressão da população, da sociedade civil, que esses jornais passaram a explorar o tema. E naquela época, 2014, era recente também uma mudança na lei do estupro, então as pessoas ainda tinham muito essa ideia de que só era estupro quando tinha consumação carnal, penetração. E a lei já tinha mudado pra constrangimento sexual também ser encarado como estupro, e isso ainda era pouco debatido, foi pouco debatido durante todo o caso, se foi uma matéria dentre, vale ressaltar, mais de 300 matérias, foi muito. E eu também traço um paralelo com o histórico do lugar das mulheres no jornalismo no século XX, pensando nessa linha histórica de como foi essa incidência das mulheres e tanto de serem pautadas enquanto mulheres, quanto de produzirem jornais. Então, as mulheres tiveram muito protagonismo no início do século XX fazendo seus próprios jornais para mobilizar questões de interesses desse segmento, como o voto, como a questão da própria capacidade de poder estar em espaços de política, se eleger, participar de instâncias jurídicas, e o próprio jornalismo. Mas, ao mesmo tempo, o jornalismo que se sobressai, que é o jornalismo tradicional, apaga essas marcas, como se a gente nunca estivesse lá.

Você, como mulher comunicadora, observando que o caso do New Hit ocorreu em 2012, ou seja, há quase 10 anos, percebe alguma mudança na abordagem dos jornais hoje?

Sobretudo no jornalismo baiano, há pouco mais de um ano e meio, há uma sobressalência do tema da violência contra a mulher, isso eu não posso negar. Inclusive emissoras que fazem campanhas e que mobilizam as suas mulheres a tratarem do tema e a se expressarem. Por exemplo, a gente tem um caso emblemático, que é o caso de Jéssica Senra, do Bahia Meio Dia, que vem se posicionando tanto sobre a questão da violência contra a mulher, quanto sobre várias questões: racismo, LGBTfobia. Isso não se pode negar: que há um avanço na cobertura e na visibilidade dessas pautas. Porém, se a gente for pensar na infraestrutura da comunicação de quem gere, de quem está na cabeça desse processo da engrenagem, quem são os acionistas desses jornais, quem são os chefes de redação, as pessoas que têm mais poder nas redações, nas equipes, elas ainda são homens. E isso é uma contradição, porque a violência não é só algo que acontece com o outro, a violência acontece com a gente. A violência contra a mulher não atinge só a mulher, que é a maior vítima disso, mas também cria um ambiente de violência, que é uma ambiente que se espalha pelas casas, pelos ambientes de trabalho, pelos ambientes educacionais. E aí a gente nota que, no jornalismo, a gente ainda tem pouco avançado nesse processo de entrar na infraestrutura. Quando você faz o recorte de quem são essas mulheres, o bicho pega ainda mais, porque as mulheres não são hegemonicamente de um recorte racial e de classe, elas são diversas, e na Bahia a gente tem um contingente de mulheres negras e pobres muito grande. Então, nós, mulheres negras, não nos vemos nesse jornalismo ainda, ainda é Jessica Senra falando, que é uma mulher branca, não é uma mulher negra que está como âncora dos principais jornais. Você vê hoje o ensaio de uma ou outra repórter, é uma repórter negra para cada emissora, me parece, pelo menos nos jornais de meio dia, e, como âncora, você só vê Rita Batista na TVE e pouquíssima visibilidade. É fazendo esse recorte que a gente vê o quanto ainda tem um buraco grande pra tratar. Do ponto de vista dessa intersecção, inclusive, de gênero e raça. E o feminismo negro vem apontando muito isso, onde estão essas mulheres pretas? O que elas estão produzindo? Na universidade, por exemplo, a gente não estuda mulheres negras, nem tem professoras mulheres negras na comunicação, na pós-graduação tampouco. E isso forma um ciclo de violência também, que caminha paralelo a essas violências que o jornalismo denuncia. É um ambiente de violência denunciando a violência, tem uma contradição aí que precisa ser tocada.

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