LUGAR DE MULHER É NA CIÊNCIA

Evento de inauguração da Rede Kunhã Asé, foto por Walter Costa Neto

As figuras femininas que fizeram e vêm fazendo a diferença nos diversos campos científicos

por Andressa Franco

Fevereiro já estava quase dizendo adeus, assim como o carnaval já havia feito, quando saiu a notícia do sequenciamento do genoma do Covid-19, o coronavírus, no Brasil, em tempo recorde: apenas 48h após confirmação do primeiro caso no país. Nos outros países, esse trabalho levou, em média, 15 dias.

Apesar do feito ter sido realizado por uma equipe liderada por 2 mulheres, composta por 27 pessoas, das quais 17 são mulheres, algumas das primeiras notícias diziam “cientistas brasileiros” e “pesquisadores”. Pouco depois, o fato de duas mulheres estarem à frente do trabalho se tornou destaque.

Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP, e Jaqueline Góes de Jesus, pós-doutoranda na Faculdade de Medicina da USP, são as responsáveis por liderar essa equipe do Instituto. Desde então, principalmente pela proximidade do acontecido ao Dia Internacional da Mulher, em reportagens e redes sociais se intensificou a discussão: por que mulheres na ciência ainda causam surpresa? (E sabemos que não é só na ciência. Esportes, política, forças armadas, cinema, entre outras áreas estão aí para provar).

Para a Pós Doutora em Sociologia da Saúde pela Universidade René Descartes/Sorbonne (França), Climene Laura de Camargo, o incentivo para as mulheres, especialmente mulheres negras, no campo da ciência deve ser iniciado desde as Escolas de Ensino Fundamental e Médio. “É importante o desenvolvimento de ações de iniciação à pesquisa nestas escolas, como por exemplo, o programa PIBIC Jr, O Projeto OGUNTEC do Instituto Steve Biko”, afirma.

Professora Titular da Escola de Enfermagem da UFBA, Climene coordenou também dois projetos no Programa Abdias Nascimento, que é um programa para formar e capacitar estudantes autodeclarados pretos, pardos e indígenas para ingressar em universidades, instituições de educação profissional e tecnológica e centros de pesquisa tanto no Brasil como no exterior. “Participei coordenando dois projetos no Programa: 1) Mobilidade Acadêmica de graduandos e pós-graduandos negros, enviamos 5 graduandos e 2 mestrandos para intercâmbio na Espanha e Portugal 2) Preparação para ingresso de pessoas negras na Pós-Graduação: incluímos 20 alunos em curso de mestrado e 1 no curso de doutorado” mas na Bahia, infelizmente, poucas pessoas souberam desta iniciativa.

Com cortes em bolsas para pesquisas nas universidades e carência em investimento, o Brasil vive um momento de crise para construir ciência. E isso vale para todos os ramos: sociais, humanas, biológicas, exatas, da tecnologia e informação. Nessa reportagem, algumas mulheres falam sobre os obstáculos nesse sentido, e como fazer sua produção reverberar para além dos muros da universidade ao invés de ficar na gaveta, como foi o caso da decodificação do genoma do coronavírus.

O gênero conta?

Gênero não define talento ou vocação, mas em muitas situações pode definir reconhecimento, foi o que aconteceu com Jocelyn Bell Burnell, por exemplo. A astrofísica britânica foi responsável, junto com seu professor, Antony Hewish, pela descoberta dos pulsares, estrelas altamente magnetizadas que giram em enormes velocidades. A descoberta rendeu o Nobel de Física de 1974, mas não para Burnell, e sim para seu professor, além de ser compartilhado com um de seus colegas, Marin Ryle.

Pós-doutoranda na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, onde desenvolve pesquisa na área de ecologia e conservação, Luisa Diele-Viegas percebe muitos obstáculos no reconhecimento da produção feminina, entre eles a ideia presente na sociedade, e reforçada no ambiente acadêmico, de que mulheres são menos capazes de produzir ciência, de que são menos racionais. “Essa associação entre masculino, objetivo e científico é histórica e usada para manter relações de poder dentro da cultura científica. Esse mito foi desconstruído a partir da década de 1970 com os estudos sobre gênero e ciência”, explica.  

“Acredito que a ciência foi, por muito tempo, muito seleta a dado público e gênero: intelectuais e homens. Quando você vai estudar história da ciência, os nomes encontrados são, em esmagadora maioria, masculinos. Newton, Einstein, Aristóteles, Thomson, Teslas, etc.” destaca Sara Conceição, 18 anos, graduanda do 3° semestre em Licenciatura em Ciências Biológicas na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) “Nomes como Marie Curie só apareceram depois da moça ganhar o primeiro Nobel entregue a uma mulher e revolucionar a ciência com a descoberta da radioatividade e de elementos químicos”.

Sara Conceição

Além de Biologia, Conceição também está no 3° semestre do Bacharelado em Matemática na Unisul, à distância, mas como hobbie, “Sou o tipo de pessoa que responde listas de matemática pra relaxar”, e, além disso, é estagiária no Laboratório de Ictiologia da Uefs, ramo da ciência que estuda os peixes, ambiente que descreve como majoritariamente masculino, “Poucos integrantes do laboratório são mulheres, as que trabalham, tem que se mostrar 10x mais competentes. Os professores das disciplinas marinhas são homens, os coordenadores do laboratório de ictiologia são homens, os palestrantes da área são homens, os escritores de livros são homens”. O interesse partiu por influência do seu pai, que é pescador, mas no laboratório já passou por situações desagradáveis.

“Lembro que meu coordenador me mostrou um peixe e perguntou o nome dele, eu não sabia. Ele disse ‘se fosse seu pai, ele saberia o nome’ e é verdade. Mas talvez se meu pai tivesse me levado em alguma pescaria, assim como já tinha levado meus irmãos, eu soubesse identificar o peixe apontado. Mas, mesmo sendo a filha mulher que ficou de fora dos ‘rolês’ de pescaria masculina, hoje eu sei o que é um robalo”.

Diversas, mas não dispersas

Não fosse o avanço no número de casos do coronavírus, no último dia 14 aconteceria o evento “Diversas, mas não dispersas”, proporcionado pela Rede Kunhã Asé, que significa “mulher de poder”. Trata-se de uma iniciativa composta por 30 mulheres cientistas ou futuras cientistas, que visa dar suporte emocional e intelectual para mulheres cientistas na Bahia, uma rede que defende a participação feminina na ciência.

“É necessário superar a cultura acadêmica que supervaloriza as produções masculinas em detrimento da produção feita por mulheres, e isso é muito notório nos congressos, autorias de artigos, cargos de destaque e prêmios, vide o Nobel.” pontua Diele-Viegas, que também é uma das 4 fundadoras da Rede, “Enquanto tivermos que falar das nossas conquistas como uma exceção é porque ainda existe a dúvida sobre nossa capacidade. Produzir ciência para as mulheres é tão desafiador quanto para os homens, só que temos que adicionar outras variáveis de conflito neste percurso como, por exemplo, lidar com o assédio moral e sexual, descrédito, impossibilidade de errar, silenciamento, apropriação de nossas ideias e conquistas, além de uma insegurança impressa em nós, ao longo da nossa vida social, pelo simples fato de sermos mulheres.”

O evento abordaria diferentes correntes do feminismo, gerando discussão sobre como essas visões podem ajudar na construção de uma agenda que promova não só o ingresso de meninas na ciência, mas também a sua permanência, evitando o chamado vazamento de duto: evasão de mulheres entre os diferentes estágios acadêmicos, que ocorre, muitas vezes, pois o ambiente acadêmico não dá o devido suporte para as mulheres e suas pluralidades.

as 4 idealizadoras da Rede Kunhã Asé, foto por Walter Costa Neto

A pesquisadora aponta a baixa representatividade de mulheres no corpo docente de instituições em diferentes áreas de pesquisa como um dos fatores para a surpresa que ainda causa vê-las ocupando esses espaços. “Por exemplo, no Departamento de Física da UFBA são 30 professores, dos quais apenas 3 são mulheres. Acredita-se que essa evasão ocorra devido à exclusão – intencional ou não – das mulheres em projetos de pesquisa, posições hierárquicas e redes de colaboração por um sistema sexista e machista, à falta de confiança da mulher em ocupar posições de liderança e à dificuldade em conciliar demandas familiares e profissionais, dentre outros fatores”. Diele-Viegas destaca ainda como a busca por esse espaço pode ser ainda mais complicada quando se tratam de mulheres negras e trans.

Apesar dos pesares, a cientista consegue demonstrar otimismo ao recordar do caso do genoma do covid-19. “Tem um bônus nesse além-muro: quem fez e qual a sua história? É uma injeção de ânimo para qualquer cientista, independente da fase da carreira em que ela está, ver duas mulheres protagonizando este momento. O fato de uma delas ser negra e baiana é também um aspecto que não dá pra ser ignorado”.

Como mudar a cena

CNPQ é uma sigla bem conhecida para quem se dedica à ciência. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico é um órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações para incentivo à pesquisa no Brasil. Ele oferece bolsas de estudo para novos pesquisadores, no entanto essa bolsa só aumenta à medida que o pesquisador produz mais. Mas será que o tempo que os homens têm para se dedicar à pesquisa é o mesmo que as mulheres têm?

Os números não deixam mentir. Segundo a Gênero e Número, uma empresa que aborda questões de gênero a partir de análise de dados, as categorias mais altas de produtividade e pesquisa, que são 1A e Sênior, são recebidas em 75% por homens.

Dados do relatório A Jornada do Pesquisador pela Lente de Gênero, da editora científica Elsevier, apontam a proporção de publicação de artigos em 44,25% mulheres e 55,75%, homens. Apesar do número em autoria das pesquisas estar próximo da paridade de gênero, o número de autoras em relação aos homens vem diminuindo. No Brasil, entre 2014 e 2018, cada homem publicou, em média, 4,27 artigos, ante 3,11 por mulher.  O que significa que eles publicam mais e têm maior avanço da carreira.

Mas, desde o ano passado, o CNPQ passou a admitir que o currículo acadêmico inclua o nascimento ou adoção de filhos de pesquisadores, conquista que dependeu de intensa cobrança de mulheres cientistas e de diversos estudos mostrando os impactos da maternidade na produtividade, a ideia é que a avaliação da produção dos pesquisadores leve em conta esse contexto.

As opiniões chegam a ser repetitivas de tão óbvias, o que só reforça o quanto são necessárias. “As histórias das mulheres que fizeram parte do campo da ciência e das importantes pesquisas cientificas nos últimos tempos devem ser contadas” afirma Andressa Aiala, 19 anos, estudante do curso Técnico em Química do SENAI “Não ouvimos falar de Rosalind Franklin, que descobriu o formato helicoidal do DNA e teve seu reconhecimento impedido por seu chefe, não estudamos sobre Nise da Silveira, que psiquiatra brasileira responsável por lutar contra atividades violentas utilizadas para tratar pacientes com problemas mentais, implementando a terapia ocupacional como tratamento eficiente e humanizado, revolucionando a ciência psiquiátrica. Nós, mulheres, nos inspiramos em outras, então ter o conhecimento que contribuições importantes para o mundo científico como essas foram feitas por mulheres já é um grande passo”.

Mas o Conselho não é o único apoio que existe. Algumas formas alternativas têm surgido, a exemplo do Prêmio Internacional Para Mulheres na Ciência, promovido pela empresa francesa L’Oréal em parceria com a Unesco desde 1988. Todos os anos, cinco mulheres são reconhecidas por suas contribuições para o avanço da ciência, em Ciências da Vida ou em Ciências Físicas, Matemática e Ciência da Computação. Na edição de 2019 uma brasileira foi premiada, a etnobotânica Patrícia de Medeiros.

Algumas iniciativas de apoio são bem acessíveis, estão nas redes sociais como Instagram. São exemplos o @descolonizandosaberes, perfil que desconstrói mitos acerca da intelectualidade negra destacando figuras importantes nesses campos ao longo da história, mas cuja maioria nunca esteve em evidência; @lendomulheresnegra, com mais de 40.000 seguidores, o perfil divulga autoras negras e suas obras; @mulheresnacienciabr segue o mesmo propósito de visibilizar o trabalho feminino em pesquisas e produções.

No ambiente acadêmico se fazem necessários avanços, Diele-Viegas cita alguns exemplos, como tornar o ambiente seguro para as denúncias de assédio, implantar medidas para reduzir a taxa de evasão das mulheres da academia, que se veem menos representadas no decorrer da carreira científica, suporte às que são mães, seja através de uma licença maternidade que garanta seus direitos constitucionais ou através da criação ou ampliação das creches institucionais.

Além do incentivo à pesquisa nas áreas de gênero e ciências como uma forma de trazer à tona o androcentrismo e práticas sexistas na produção científica que reforçam e tentam manter os papéis de gênero, uma vez que tais pesquisas podem contribuir para fomentar políticas públicas e ações afirmativas para mais mulheres nas ciências, e para uma visão de ciência mais diversa e plural.

Fazendo história com a ciência

Passeando pelos séculos e pelo mundo até os dias atuais, é possível encontrar milhares de mulheres que se destacaram em todas as áreas das ciências: exatas, biológicas, sociais, humanas e da computação. Aqui estão algumas delas:

Augusta Ada Byron King, Condessa de Lovelace -nascida em 1815 e atualmente conhecida como Ada Lovelace, foi uma matemática e escritora inglesa, hoje considerada a primeira programadora da história por ter escrito o primeiro algoritmo para ser processado por uma máquina, a máquina analítica de Charles Babbage.

Marie Curie – nascida em 1867, a cientista e física polonesa é famosa pela descoberta da radioatividade e de novos elementos químicos, além de ser a primeira pessoa e única mulher a ganhar o Prêmio Nobel duas vezes.

Simone de Beauvouir – nascida em 1908, é um dos principais rostos do feminismo até hoje. “O Segundo Sexo” (1949) é a obra mais conhecida da escritora e filósofa francesa, na qual ela analisa o papel das mulheres na sociedade. Também é dela a famosa frase “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Hedy Lamarr – nascida em 1914, além de atriz de Hollywood, a austríaca desenvolveu, durante a Segunda Guerra Mundial, uma tecnologia que controlava torpedos à distância, assim os canais de frequência de rádio eram alterados rapidamente evitando a interceptação pelo inimigo. Esse conceito de transmissão resultou no desenvolvimento de tecnologias como o Wi-Fi e o Bluetooth.

Katherine Jhonson – nascida em 1918, a matemática, física e cientista espacial é reconhecida pelo seu trabalho na NASA, onde contribuiu diretamente para a chegada do homem à lua. Sua história foi parar nos cinemas no longa Estrelas Além do Tempo e ela subiu ao palco na cerimônia do Oscar 2017, onde o filme foi indicado em 3 categorias.

Ângela Davis – nascida em 1944, é uma filósofa socialista estadunidense, integrou o Partido dos Panteras Negras e tem grande notoriedade pela sua luta em defesa dos direitos das mulheres e contra a discriminação racial nos EUA, além de considerar uma abolicionista prisional, tendo ela mesma experimentado a prisão.

Françoise Berré-Sinoussi – nascida em 1947, é a responsável pela descoberta do HIV, vírus causador da AIDS, com o auxílio de dois colegas, em 1983. Em 2008, a cientista francesa recebeu o prêmio Nobel de Medicina. Hoje, ela é presidente da Sociedade Internacional de AIDS.

Judith Butler – nascida em 1956, a filósofa estadunidense é uma das principais teóricas da Teoria Queer, que começou a se consolidar através do seu livro “Problemas de Gênero” em meados dos anos 90.

Márcia Cristina Bernardes Barbosa – nascida em 1960, a carioca é especializada em mecânica estatística, seu trabalho em que propõe uma explicação para a existência de anomalias na água. Em 2013, foi agraciada com o Prêmio L’Oréal-UNESCO para Mulheres em Ciência. Em 2019, foi eleita membro da Academia Mundial de Ciências. E só esse ano foi mencionada pela ONU Mulheres com uma das sete cientistas que moldam o mundo e considerada uma das 20 mulheres mais influentes no Brasil pela revista Forbes.

Katie Bouman – nascida em 1989, o nome mais jovem da lista ganhou fama no ano passado por criar o algoritmo por trás da reprodução da primeira imagem de um buraco negro. O projeto começou quando a americana era graduanda do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT. Além de ser PhD em Engenharia Elétrica e Ciência da Computação no Instituto, atualmente Bouman é pós-doutoranda no Event Horizon Telescope e professora assistente no Caltech dentro do departamento de ciência da computação do MIT.

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