Direitos & Saberes – Ivanise Andrade

Por Sara

Jornalista,Jornalista, Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), docente da FACOM e consultora do CCDC, a professora Ivanise Andrade nos contou um pouco sobre sua jornada acadêmica e pesquisa de doutorado com o tema da violação dos direitos da infância na comunicação.

Por que a escolha de trabalhar com a temática da infância e adolescência na sua carreira acadêmica?  Você começa com o tema da exploração sexual de crianças e a adolescentes na graduação, e chega no doutorado com a construção discursiva da violência nos jornais envolvendo esse grupo etário. Como foi essa jornada?

É interessante você perguntar isso, meu trabalho de conclusão de curso foi um livro-reportagem sobre  exploração sexual de crianças e adolescentes pelas cidades por onde passou o Gasoduto Bolívia-Brasil,  lá no Mato Grosso do Sul. Na época quando eu ainda estava na graduação participei de alguns projetos com um professor da graduação ligado aos conselhos tutelares. No ano 2000 o  Estatuto da Criança e Adolescente completava 10 anos, então teve toda uma mobilização nacional e eu acabei entrando nessa temática. Meio que uma coisa foi levando a outra. Muitos eventos que eu acabei participando tinham esse debate, de quanto as grandes obras de infraestrutura do país acabam aumentando os casos de exploração sexual cometida contra crianças e adolescentes. Ao longo dos anos 2000 esse era um assunto que estava muito em voga, e foi quando eu elaborei meu TCC em 2001. Então foi o interesse pessoal, mas também porque acabei me envolvendo com a temática por conta desses projetos.

Uma coisa foi puxando a outra, por conta desse TCC eu acabei conseguindo um emprego numa organização não-governamental que trabalha com projetos na área da comunicação e defesa dos direitos da criança e do adolescente, em Mato Grosso do Sul. Eu fiquei nessa organização por cinco anos, a gente fazia monitoramento de mídia, pesquisa sobre cobertura da imprensa com as temáticas da infância. Então fui me habituando também a orientar jornalistas nas melhores formas de cobrir a temática da Infância e adolescência. Isso acabou me motivando a fazer o mestrado, que não foi na área de comunicação, mas na área de linguagens, em uma linha de pesquisa de linguística semiótica estudando também a cobertura de jornais sul-mato-grossenses sobre exploração sexual de crianças e adolescentes. Eu usava uma metodologia de análise muito próxima da metodologia com a qual trabalhava na organização, inspirada na da rede ANDI Brasil (Agência de Notícias dos Direitos da Infância  Brasil); muito parecido também com o monitoramento de mídia que a Cipó (CIPÓ – Comunicação Interativa) e o CCDC fazem. Isso acabou me levando a trabalhar com essa temática no meu doutorado. Isso é muito comum nas pesquisas acadêmicas, a gente acaba se concentrando em uma área, uma temática, ou uma metodologia e acaba levando isso para outras pesquisas, outros trabalhos.

Como foi o processo de produção e pesquisa de sua tese de doutorado? E por que  escolheu fazer um estudo de caso?

O processo de doutorado foi desenvolvido ao longo de quatro anos entre 2012 e 2016. Eu já entrei com esse projeto de analisar a temática da violência contra criança. Eu ampliei um pouco mais, já que demandava uma pesquisa mais robusta e eu teria mais tempo. Então não trabalhei só com a violência sexual,  mas todos tipos de violência envolvendo crianças e adolescentes. Essa definição foi importante na tese porque não são só violências sofridas pela criança e adolescente, mas também quando essa violência envolvia adolescentes como autores. Isso para poder fazer uma comparação de como era a construção discursiva quando a criança ou adolescente é uma vítima de violência, e quando ele está envolvido como um autor de um ato infracional. Como o tratamento jornalístico é diferente quando se trata de um e de outro caso. E aí a definição mesmo para fazer um estudo de caso comparativo entre os jornais O Globo e o Extra foi justamente para perceber também se dois jornais de um mesmo grupo, ou seja o grupo Globo, faziam construções discursivas ou tratavam de maneira diferente esse tema. O Extra sendo um jornal popular mais voltado para as classes C, D e O Globo um jornal considerado de elite, um jornal referência, de circulação nacional.

É sempre bom a gente olhar para a realidade empírica e conseguir visualizar nessa realidade empírica aquilo que está acontecendo, tudo que a gente vem estudando teoricamente dentro da academia. Então olhar para esses jornais era importante até para termos esses dados. Eu analisei esses dois jornais dentro de um período histórico bastante extenso. Peguei quinze anos de cobertura, fiz uma amostra de quase trezentas matérias analisadas dentro desse período, entre 2000 e 2015.

É comum escutar de estudantes de jornalismo e jornalistas que, por mais que tentemos mudar a forma como construímos os discursos sobre a violência no fazer jornalístico, ainda encontramos muita resistência de editores e superiores. Principalmente quando os personagens da notícia são minorias políticas, não explorar a dor, não desrespeitar direitos básicos e não ser sensacionalista são dificuldades diárias. Por que é tão difícil mudar isso?

Realmente eu já escutei muitas vezes, justamente porque eu fazia um trabalho de ir às redações, de ir até às universidades para dar oficinas e palestras para jornalistas e estudantes de jornalismo. E muitos diziam isso, que é muito difícil, que tem essa resistência, ou que muitas vezes eles não sabem como tratar determinados assuntos. É  importante esse questionamento porque tem dois aspectos. Primeiro, dentro da formação que o estudante de jornalismo recebe na universidade. Nem sempre, e isso tem mudado nos últimos anos, eles recebem uma formação na área de direitos humanos, cidadania, ou estudam as legislações nacionais e internacionais relacionadas a temáticas como os direitos da mulher, direitos da criança e adolescente, questões sociais, questões éticas, indígenas. Enfim, então eles já chegam no mercado de trabalho com essa defasagem, ou seja, sem ter estudado isso na universidade, primeiro ponto. O segundo ponto é que  dentro da redação, esse profissional que está chegando no mercado de trabalho não tem um respaldo da sua chefia, ou de pessoas mais experientes para orientá-los sobre a melhor maneira de cobrir determinados assuntos. Essa falta de orientação acontece porque essas pessoas mais velhas que estão nas redações não tiveram essa informação. E o pior é muitas vezes não considerar aquilo importante, eu já ouvi muito chefes e editores reconhecerem que há um problema, mas não sabem como resolver. E alguns que negam haver problema, pois consideram essa a linha editorial do jornal. Principalmente esses veículos com pegada sensacionalista propositalmente, isso faz parte da sua linha editorial, eles vão dizer então que o público gosta, quer ver dessa forma, é a linha de trabalho deles e tudo mais.

Eu normalmente falo para os novos jornalistas, para meus alunos é: aprenda o jeito correto a ser feito, se tiver dúvida pergunte a pessoas que trabalham com essas temáticas. E negocie, tente negociar com a sua a sua chefia, eu trabalhei um tempo na redação e tive sorte de encontrar ótimas chefes, sensíveis a essas temáticas, então não precisei  fazer grandes negociações. Mas eu sei de colegas que todos os dias precisam fazer negociações com a chefia. Não é um trabalho fácil, existe toda uma legislação que responsabiliza e pune com multas os veículos de comunicação, principalmente com relação a cobertura da infância e adolescência, mas muitas vezes o veículo não se intimida pela existência da legislação. Para que ele seja punido de alguma forma o Ministério Público precisa receber uma denúncia, e muitas vezes as pessoas,  os telespectadores, leitores não conhecem essa legislação, não acham que aquilo merece ser denunciado. 

São várias as questões, ainda estamos caminhando, mas muita coisa melhorou. Hoje se a gente pensar que o Estatuto da Criança e  Adolescente vai completar em julho trinta anos de existência, e fizer uma análise comparativa de trinta anos de cobertura da infância e da adolescência a gente evoluiu muito. Contudo, mudanças culturais são sempre lentas, precisam de tempo para serem incorporadas pela sociedade, e o jornalismo não está a parte da sociedade, a gente faz parte.

Clique aqui para baixar o TCC de Ivanise Andrade.

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