“Não tenho dúvidas de que a ausência de informações sobre o que se passa na África é parte do racismo estrutural que se materializa também nos meios de comunicação”

Por Cássio Santos Santana

A segunda entrevista do “Direito Meu e Seu”, que abordam os impactos da pandemia da covid-19, é com o professor, pesquisador e jornalista, Paulo Victor Melo. Nesta entrevista, Paulo Victor reflete sobre a falta de visibilidade dos efeitos da covid-19 em África nos meios de comunicação brasileiros. Confira! 

Você tem discutindo como os principais meios de comunicação têm negligenciado os efeitos da covid-19 em África. O que podemos inferir desta clivagem na cobertura por parte dos meios de comunicação, particularmente os brasileiros?

O que se observa, de um modo geral, é uma postura de silenciamento da mídia brasileira com relação à pandemia na África. Considerando que é na África em que está a maior quantidade de países com o mesmo idioma que o nosso e considerando que é o continente com mais países do mundo, é absurdo esse “pôr em silêncio” produzido pelos meios de comunicação privado-comerciais. 

A qualquer momento que liguemos a televisão, encontraremos notícias sobre os Estados Unidos, China ou países da Europa. Já se tentarmos encontrar conteúdos sobre a África, o resultado será o oposto.

Por exemplo: quase diariamente, vemos notícias sobre o êxito da Alemanha no combate ao coronavírus. Se pegarmos dados de Marrocos, vamos ver que há naquele país uma política igualmente exitosa e que poderia ser apresentada como exemplo, mas em qual jornal vimos algo sobre Marrocos?

Mas não tenho dúvidas que a ausência de informações sobre o que se passa na África é parte do racismo estrutural que se materializa também nos meios de comunicação, operando, como já nos disse o professor Muniz Sodré, por componentes como a negação, a estigmatização, o recalcalmento e a indiferença profissional.

Se o camaronês Achille Mbembe cunhou a expressão “Necropolítica” para se referir à produção de mortes em larga escala pela determinação política de quais corpos têm direito à vida e quais devem morrer, podemos afirmar que há também uma opção necropolítica dos meios de comunicação sobre quais sujeitos têm importância, a ponto de merecer destaque em suas coberturas, e quais podem morrer que não são sequer mencionados.

Como a pandemia tem atingido os países africanos? Quais canais de comunicação que você se utiliza para colher informações sobre os efeitos da covid-19 em África?

Apenas reforçando o que disse inicialmente, o atual diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, é africano, nascido na Eritreia. Então, termos o silenciamento da África é ainda mais emblemático de como o racismo estrutural se reflete nos meios de comunicação.

Mas, acredito que pela própria figura do Adhanom, tenho visto alguns conteúdos da própria OMS sobre o avanço da pandemia na África. Dados oficiais do órgão, inclusive, têm alertado para um crescimento exponencial da Covid-19 naquela região. Na última semana, foi registrado um aumento de 43%, sendo atualmente quase 30 mil infectados e mais de 1200 mortos, em 52 países. 

Some-se a esse crescimento, uma série de problemas, como: um possível elevado índice de subnotificação, considerando que, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África, a capacidade dos países africanos de realizar testes é extremamente limitada; e negligenciamento de serviços essenciais para o combate a outras doenças graves, como a malária, ampliando sérios problemas de saúde na região.

Em termos de fontes de informação, além dos sites oficiais, recomendo portais como AngoNotícias e Jornal de Angola, de Angola; O País, de Moçambique; Diário de Notícias, de Cabo Verde; e Deutsche Welle, veículo que alemão que tem muita produção sobre a África.

Com as medidas de contenção e o confinamento em massa, houve uma profusão de lives em redes sociais sobre uma variedade de temas. Você perceber este cenário como um contraponto à falta de cobertura dos meios de comunicação clássicos aos efeitos da covid-19 em África?

A sua pergunta me fez perceber que, na verdade, esse silenciamento sobre a questão do novo coronavírus se passa também naqueles meios de comunicação que se propõem alternativos. Ainda que em termos político-ideológicos esses meios tenham compromisso com causas populares e democráticas, quando analisamos as suas coberturas verificamos uma repetição de pautas e temas. 

Então, mesmo os variados debates que estão ocorrendo na internet não conseguem reverter essa ausência de informações e dados mais detalhados sobre a África. E isso é algo lamentável, porque, do ponto de vista da língua portuguesa, teríamos inúmeras possibilidades de troca de conteúdos e análises com países como Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné Bissau, Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe.

Talvez esse sejam dos principais desafios da mídia que se reivindica popular e alternativa: construir novas miradas, estabelecer pontes com nossos irmãos africanos e pensar a produção de conteúdos que favoreça o compartilhamento de experiências, nos conectando, assim, com o nosso chão formador.

Como esta lacuna na cobertura sobre os efeitos da pandemia em países africanos se relaciona com práticas jornalísticas recorrentes de sempre colocar a África como um não-lugar, um lugar de pouca importância em termos de valores de notícia?

Como disse logo no início, acho que é algo que extrapola a própria questão dos valores-notícia. Se relaciona diretamente com um olhar sobre o mundo ainda hegemonizado pela perspectiva eurocêntrica, colonizadora, que tende a invisibilizar, silenciar e, quando aborda, estigmatizar o continente e os povos africanos. Sendo um elemento que diz respeito à estrutura, aos próprios ditames editoriais, podemos ter exemplos nas diferentes linguagens e conteúdos, incluindo o jornalismo.

Em sua opinião, a pandemia da covid-19 trouxe ou trará algo de novo no debate sobre racismo e meios de comunicação?

Alguns estudos já apontam que a principal marca da Covid-19 tende a ser a ampliação das desigualdades, sendo as populações mais pobres e periféricas, formada em sua maioria por negros e negras, as mais vulneráveis não aos efeitos dos vírus em si, mas à ausência do Estado na prestação de uma saúde pública de qualidade. Estou falando aqui das famílias que não têm habitação ou vivem em moradias inadequadas, das desempregadas/os, trabalhadoras/es da informalidade, pessoas em situação de rua, obrigadas a aglomerar-se cotidianamente na luta diária por direitos. 

Dados da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade revelam, por exemplo, que 67% dos brasileiros que dependem exclusivamente do SUS são negros, e estes também são maioria dos pacientes com diabetes, tuberculose, hipertensão e doenças renais crônicas, consideradas agravantes para o desenvolvimento de quadros mais preocupantes da COVID-19, sendo que boa parte dessas comorbidades é ligada a questões sociais, como a falta de saneamento básico, e agravada pelas desigualdades raciais, como condições precárias de moradia, que favorecem doenças como a tuberculose, ou alimentação inadequada, que promove doenças como diabetes e hipertensão arterial.

Então, essa seria uma ótima oportunidade para os meios de comunicação, cumprindo com um papel educativo, ampliarem o debate público sobre o racismo que estrutura ainda hoje as nossas relações econômicas, sociais e políticas. Infelizmente, não vejo isso. Avalio que a cobertura da mídia até tem sinalizado para uma certa preocupação com os impactos da pandemia nas periferias, mas analiso que há sempre um caráter pontual, episódico, além de ignorar a questão racial, como se em nosso país o problema “social” não se relacionasse com raça. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s