“Sem imprensa livre não há democracia”

A informação e o direito à comunicação são imprescindíveis para o combate à pandemia de coronavírus que se alastrou no mundo em 2020. A circulação acelerada do vírus em todos os países é bem parecida com a velocidade das informações nos meios digitais, o que demonstra o quanto é importante produzir notícias confiáveis, garantir ambientes saudáveis para a produção da comunicação e sobretudo valorizando xs profissionais da comunicação – serviço essencial nos momentos de crise.

Nos últimos dias, no Brasil,  tomamos conhecimento de muitos casos de agressões contra jornalistas e demais profissionais da comunicação. Esse contexto não ajuda no combate à pandemia e aprofunda crises políticas, coibindo a liberdade de expressão e o direito à comunicação, temas caros para a democracia.

Para falar desses temas, a entrevista do “Direito Meu e Seu” desta semana conversa com Luana Assiz, jornalista e compositora, que está na linha de frente da cobertura da pandemia de COVID-19, apresentando semanalmente o telejornal “Bahia Meio Dia”, programa da Rede Bahia. Luana nos conta os desafios da profissão de jornalista no contexto de crise sanitária mundial, fake news, liberdade de expressão e direito à comunicação.  Confira a entrevista a seguir:  

1. Com o processo de digitalização das comunicações e expansão das possibilidades de produção e circulação de conteúdos, suspeitou-se que o jornalismo perderia sua importância na mediação social. Qual a sua avaliação sobre uma possível crise no jornalismo? O que esse momento de crise global aponta como desafios para a profissão?

Sobre a crise no jornalismo a partir da intervenção dos meios digitais, acredito que o que acontece é uma convergência. O jornalismo incorpora todas as formas de comunicação. No telejornalismo, por exemplo, incorpora-se muito o uso das redes sociais. A interação com o telespectador segue essa linha, através do recebimento de mensagens, vídeos e comentários. Não existe uma crise no jornalismo vindo da ameaça dos novos meios de produção de conteúdo. O que existe é uma ameaça do exercício do jornalismo por práticas violentas contra profissionais, praticada no Brasil através de manifestações políticas que atrapalham o exercício da imprensa, muitas vezes incentivadas pelo atual Presidente da República. A forma com que a imprensa vem sendo tratada pelo Governo Federal dificulta o exercício diário da profissão e gera episódios como a agressão sofrida pelo jornalista do Estadão.  Esse momento aponta um desafio muito grande de encontrar formas de trabalho seguras, também redobrando o cuidado com a apuração, porque estamos vivendo um momento em que muitas pessoas se informam pelas redes sociais, um campo fértil para a circulação de fake news. O jornalismo cumpre um papel muito importante em desfazer os erros das falsas notícias e esse papel requer mais trabalho, porque além de dar conta da pauta do dia, temos que desfazer as notícias falsas. Em muitos portais de notícias já é comum uma aba de “Fato ou Fake”, porque existe uma exigência dessa verificação para que as pessoas fiquem bem informadas. 

2. Atualmente, a expressão Fake News é uma das mais utilizadas para falar sobre a  circulação de notícias falsas. Porém, estudos na área da comunicação, como o Atlas da Notícia 2019, demonstram um problema ainda maior de desinformação, com ausência de organizações de mídias em muitas regiões do país. Como o jornalismo vem encarando esse tema? E quais são os impactos da desinformação na crise sanitária atual?

A fake news nesse momento de crise sanitária é grave, porque já é difícil fazer a cobertura de uma pandemia, algo que nunca vivemos antes nesse contexto de novas configurações de tecnologias da comunicação, inédito, e por si só um desafio. Nesse processo, se torna mais precioso o trabalho criterioso  da imprensa na  apuração dos fatos, uma imprensa próxima das fontes oficiais para busca e tradução de dados importantes para a população. O papel do jornalismo acaba sendo evidenciado nesse momento. Por mais que exista um site, no qual qualquer pessoa possa acessar, de uma secretaria de saúde para poder ter acesso aos dados, o acompanhamento diário e interpretação desses números faz toda a diferença na hora de transmitir a informação, pois poucas pessoas no país têm o hábito de buscar informações oficiais como Diário Oficial, entre outros. Esse é o trabalho diário da imprensa para que as pessoas tenham acesso à informação oficial, pelo menos. E, na pandemia, sabemos que existem subnotificações e outras dificuldades nas informações oficiais, porém a fonte oficial ainda tem o seu lugar. Muita gente faz vídeo na internet, produz diversos conteúdos falando sobre o assunto e cada um tem um teoria, tem uma forma de enxergar, um posicionamento. Se as pessoas que consomem informação não tiverem cuidado, podem ser levadas para uma histeria coletiva, um pânico generalizado por causa desse contexto.

É importante que saibamos filtrar as informações. Obviamente existe também as fontes acadêmicas, que produzem conteúdo e disponibilizam de forma independente,   mas a reunião entre aquilo que está sendo divulgado por cada uma dessas esferas, parte do leque de fontes necessárias para informar as pessoas, essa compilação cabe ao jornalista. Poucas pessoas vão fazer isso, além de nós. Na realidade o que as pessoas têm como prática cultural é receber uma informação no celular, nas redes sociais e repassar sem ler, sem checar se a informação é verdadeira ou não. No nosso trabalho, como jornalistas, tentamos alertar: “olha, se você vai repassar uma informação, você pelo menos verifica a fonte para saber se é isso mesmo que você está repassando”. A falta de checagem é a base de muitos golpes na internet, com envio de links de instituições oficiais que ao serem clicados os dados são capturados. Então nesse momento em que as necessidades estão mais visíveis, muita gente se torna vulnerável a esse hábito cultural de acreditar na primeira informação que chega. 

Existe uma diferença muito grande entre informação e notícia, então temos que saber diferenciar aquilo que circula como fake news e aquilo que de fato é notícia. O jornalismo acaba cumprindo o papel de fazer essa diferenciação de forma ainda mais essencial, por isso que nossa profissão está na lista de serviços essenciais, e não é à toa. 

3. Em 20 de março, a presidência da república publicou o decreto 10.282, que listava 35 serviços essenciais para o enfrentamento à pandemia de  COVID-19, sem  incluir a imprensa. Dois dias depois o serviço de imprensa foi incluído na lista, pelo decreto 10.288. Qual a sua opinião sobre o reconhecimento tardio da imprensa como essencial neste momento de pandemia? A posição do Governo Federal tem rebatimentos negativos nas condições de desenvolvimento do trabalho jornalístico?

A posição do Governo Federal com a imprensa é muito problemática, não só no que se refere ao reconhecimento tardio da imprensa como um serviço essencial, mas também no exercício diário da profissão. A forma de tratamento vem sendo bastante agressiva, o que estimula a agressividade das pessoas que apoiam o Presidente, na relação com a imprensa. O Brasil vem sendo um dos lugares mais difíceis de exercer o jornalismo no mundo. Temos visto com muita frequência episódios de agressão, como o caso da agressão física a equipe do jornal Estadão, e isso é muito grave. Uma semana depois dessa agressão o presidente, de forma grosseira, mandou um jornalista da Folha de S. Paulo calar a boca durante uma coletiva de imprensa. Isso é muito grave. Esses episódios são um cerceamento da liberdade de expressão, do exercício do jornalismo, então é algo que a gente precisa apontar e ter instituições fortes que possam regular essa atitudes e impedir situações desse tipo. Sem imprensa livre não há democracia! 

4. Como vem sendo sua experiência na linha de frente do combate à pandemia de COVID-19? E como sua profissão tem impactado outras áreas da vida?

Essa experiência vem sendo muito desafiadora para mim. Tenho refletido muito essa nova forma de trabalho, que não apenas se organiza em escalas diferentes, em que alternamos nas equipes a cada semana, mas também na forma de produção de conteúdo. Acabamos organizando outros modelos de levar a notícia, mas sempre com o mesmo empenho de manter a credibilidade e o cuidado com a apuração e demais parâmetros jornalísticos. O que impacta na minha vida no momento é a condição da pandemia associada à profissão, porque como é um serviço essencial eu estou em circulação, em movimento, e tenho visto minha família basicamente por vídeo-chamada,  por não poder estar em isolamento total com muitas pessoas podem. Isso tem mexido com minha dinâmica familiar, no sentido de não ter tanta proximidade física com meus pais que são idosos. Por outro lado me faço presente através das tecnologias, e que bom que elas existem não apenas para o jornalismo, mas para nossa vida pessoal. É uma forma completamente nova de viver, de um modo geral, que estamos atravessando.  

5. A informação e a Comunicação são direitos, porém seu acesso é limitado por diversas razões, a depender do grau de democracia, estrutura de comunicação de cada país, entre outros. Qual é a sua análise sobre a garantia desses direitos no Brasil? Existe a possibilidade de redução dos direitos no processo de pandemia?

Eu acho que no Brasil ainda temos muito a buscar para horizontalizar os direitos à comunicação e informação, principalmente quando se trata, por exemplo, do acesso à internet. Nesse momento que estamos vivendo uma pandemia e a maior parte das pessoas precisam de um auxílio emergencial, que vem do Governo Federal e está sendo oferecido através de plataformas digitais, a grande maioria não tem o total acesso à internet para navegar no aplicativo que faz a intermediação do benefício. Isso é uma lacuna muito grave, porque estamos em um momento de extrema urgência, no qual pessoas estão sem ter o que comer e precisam de dinheiro, que hoje vem através de métodos que envolvem a comunicação/internet, métodos que pessoas não têm o acesso plenamente garantido. 

Existe o risco de redução dos direitos no que se refere ao exercício do jornalismo, a partir do momento em que jornalistas são hostilizados tanto pelo Presidente da República, quanto por parte dos seus apoiadores. Isso põe em risco o trabalho da imprensa, e consequentemente põe em risco o direito à comunicação 

6. Esse ano o Brasil caiu mais uma posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, organizado pela ONG Repórteres sem Fronteiras. O país agora ocupa a 107° posição entre 180 países. Você se sente insegura no dia-a-dia da profissão de jornalista? Na sua opinião, quais os perigos enfrentados pelxs jornalistas e como vocês têm reagido nas situações de violação de direitos?

Não. Eu não me sinto insegura no exercício da profissão, porque a minha condição atual não me coloca tanto em exposição quanto outros colegas, por exemplo. Porém, me coloco de uma forma coletiva como parte de uma categoria que vem sendo atacada diariamente, então a insegurança é coletiva, até porque no meu caso trabalho em televisão, tenho uma imagem conhecida e por si só já estou exposta fora do ambiente de trabalho. O contexto que vivemos hoje pode me colocar em risco por conta da radicalização dos ataques à imprensa. Contudo, no exercício da profissão eu realmente não me sinto insegura neste momento. Me preocupo com a condição que a imprensa enfrenta nesse momento e acho que precisamos de um amparo de outras instituições para que os meios de comunicação e os jornalistas possam ter uma liberdade de atuação e uma segurança, principalmente. É necessário que as entidades continuem se posicionando por meio de notas e avançando um passo para além para se unir. As empresas precisam se unir nesse momento na defesa do direito de liberdade do trabalho do jornalismo. É importante que a categoria se fortaleça para que possamos ter melhores condições de trabalho. 

7. O que podemos aprender e desaprender com a COVID-19?       

Podemos aprender novas formas de trabalho e interação social. Podemos aprender a otimizar melhor nosso tempo, porque a partir do momento que nos vemos em uma situação de isolamento, sem poder estar perto das pessoas que amamos, a gente acaba valorizando mais o tempo que temos com elas, valorizando as oportunidades de viver coisas que levávamos de uma forma mais superficial e banal. Acho que a valorização do tempo também vai no sentido do trabalho, de não perder muito tempo com reuniões que poderia ser um e-mail, por exemplo. 

Teremos que  desaprender, pelo menos por algum tempo, a estar em aglomerações nas experiências culturais e sociais. Nesse sentido, o movimento de live’s musicais já é um exemplo, são artistas se reinventando. Isso vai precisar ser repensado em outros aspectos da cultura e da mobilização social também.

Vamos desaprender ou reaprender formas de se relacionar, porque a partir do momento que o toque, o contato físico, fica limitado às pessoas que convivem no mesmo ambiente, pensando em ambientes domésticos como um casal ou uma família que mora junto, teremos que rever muito da nossa postura de relações interpessoais. E isso para o povo baiano, que de um modo geral tem a cultura do toque muitas vezes entre desconhecidos, por exemplo, uma fila de banco em que alguém toca em você para pedir informação; esse tipo de coisa teremos que deixar para trás, reaprender a agir de outra forma. 

Os cuidados básicos de higiene que a sociedade negligenciou estamos tendo que redobrar a atenção e reaprender em alguns casos. Porém, é preciso que todo mundo tenha o acesso às condições básicas de higienização. Então, enquanto sociedade, vai ser necessário oferecer essas condições de higienização para todos: o acesso à água, saneamento básico, entre outros recursos.  

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