“Quando o discurso jornalístico se apropria (do) ou negocia com o discurso estratégico, emerge a questão de que interesses predominaram na construção da notícia”

Por Cássio Santana

A pesquisadora, professora e jornalista Claudiane Carvalho, em seu novo livro “A construção da notícia: interseções entre jornalismo e comunicação estratégica”, lançado recentemente pela Editora Edufba, busca compreender como as notícias são construídas a partir da relação entre jornalismo e assessorias de comunicação. O livro é parte da tese de doutorado defendido pela jornalista, em 2014, no programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (PósCom) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Nesta entrevista concedida ao CCDC, Claudiane discute pontos do livro. Confira! 

As assessorias de comunicação tornaram-se há muito tempo uma realidade com a qual o jornalismo tem que necessariamente lidar. Muitas matérias jornalísticas que consumimos no nosso cotidiano nascem da interação entre instituições jornalísticas e assessorias de comunicação. Quais os efeitos desta relação na construção da informação?

Embora defenda que os estudos devem ser feitos caso a caso, há aspectos que, penso, podem ser generalizados, permitindo-nos abarcar o fenômeno.  A construção narrativa jornalística é uma configuração do fato social, na qual estão entrelaçados aspectos simbólicos, temporais e de inteligibilidade. O mesmo ocorre com a construção narrativa da informação feita pelas assessorias. Entretanto, espera-se que a narrativa jornalística atenda a um ethos (um modo de se apresentar pelo discurso) distinto do ethos da comunicação estratégica. Assim, quando o discurso jornalístico se apropria (do) ou negocia com o discurso estratégico, emerge a questão de que interesses predominaram. O leitor, então, desponta como um possível prejudicado nesse processo. 

As instituições desejam construir uma imagem favorável de si e criam filtros na circulação de informações, sobretudo a partir de uma comunicação estratégica. Em que medida o discurso informativo jornalístico é afetado neste percurso?

Na pesquisa, nossa preocupação foi direcionada à construção narrativa da notícia quando há uma articulação entre o discurso informativo da comunicação estratégica e o discurso informativo do jornalismo. Ou seja, quando o jornalismo tem acesso ao fato social por meio da narrativa da assessoria de comunicação. No discurso estratégico, além da necessidade de atender aos critérios de noticiabilidade para que haja pontos de vinculação com o fazer jornalístico, há também o imperativo de atender aos valores da organização fonte. Assim, as assessorias, na construção da informação, conectam o valor-notícia com os valores institucionais, uma vez que têm uma atuação em prol da imagem e da reputação da fonte. No jornalismo, porém, a construção da narrativa busca o efeito de sentido de verdade e, a priori, tem uma responsabilidade com o público, com o social. A questão é que as redações jornalísticas vêm sofrendo muito com o enxugamento do quadro de profissionais, as rotinas produtivas impostas pelas novas tecnologias e o “envelhecimento” cada vez mais célere do novo. Do outro lado, as fontes investem cada vez mais na profissionalização da comunicação. Nesse contexto, muitas vezes, o tempo da apuração é reduzido e, ao ser publicada a narrativa da fonte, por exemplo, amplia-se o debate sobre as questões éticas da construção da informação para muito além da redação jornalística, envolvendo  outros campos sociais.

Esta pergunta é muito instigante e não creio que haja uma resposta definitiva, mas hipóteses que precisam ser testadas a cada mudança de contexto sócio-tecnológico, político, econômico, cultural, considerando-se, ainda, as organizações envolvidas, tanto a jornalística quanto a fonte. Todavia, nessa interação entre comunicação estratégica e jornalismo, observa-se um tensionamento nos valores notícias, os quais, vale ressaltar, não são estanques e estão sempre em renovação. 

A circulação de informação é muito mais dinâmica do que há 10 anos atrás, o que demanda novas configurações tanto por parte do jornalismo quanto das assessorias de comunicação. Como essas transformações se implicam na relação entre assessorias e jornalismo? E na construção do próprio discurso jornalístico?

As fontes não dependem mais das mídias jornalísticas para circulação do conteúdo informativo de seu interesse. As organizações criam seus próprios meios e concorrem para o processo social de agendamento público. É claro que essa dinâmica não oblitera o capital simbólico associado a uma informação veiculada por um meio jornalístico de prestígio no campo, contudo coloca em cena um leque de possibilidades, do qual as organizações usufruem com muita propriedade, especialmente por conta dos chamados marketing de conteúdo e marketing de influência. No que tange ao discurso jornalístico, creio que o debate envolve muitas camadas, as quais abarcam desde esse processo de profissionalização da fonte até o reposicionamento do “receptor” no ciclo produtivo da notícia e presença da curadoria algorítmica, promovidos pela internet, tecnologias móveis e plataformização da notícia. Nesse cenário, por exemplo, o leitor convoca para si um lugar de partícipe no processo, há o que Braga chama de uma “desespecialização” que contamina a narrativa jornalística. 

Vivemos um momento de tensão política e de ameaças à democracia. A circulação de mensagens tem se mostrado como um fator importante neste contexto, bem como diferentes dispositivos tecnológicos.  O sentido dos fatos cotidianos se tornou um campo de batalha acirrado em diferentes espaços, sejam nas ruas, sejam nas redes sociais. Como você avalia o momento para o jornalismo? E na relação deste com as assessorias de comunicação?

Complexo, heim! Corroboro com autores como Carlos Scolari que defendem, de certa maneira, a necessidade de uma formação para o consumo de informações. No sentido de que o leitor reconheça a diferença entre uma informação verificada e aquela que não o foi, que saiba da existência e da dinâmica dos bots e dos algoritmos, entre outros. A questão, a meu ver, ultrapassa o campo jornalístico e também a comunicação estratégica e conclama uma atuação conjunta que envolva novas práticas educacionais, a elaboração de políticas públicas e de legislações consistentes e, obviamente, não enviesadas. Aqui, observo que os coletivos e outras ações da sociedade civil, além de projetos da universidade, como o CCDC, têm um papel importante e um grande desafio pela frente.  

Onde encontrar o livro: http://www.edufba.ufba.br/ e https://30porcento.com.br/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s